Yes we could

Obama fez 50 anos. Na mesma semana em que metade do Partido Democrata votou contra ele numa lei sem sentido: diminuir a precária segurança social dos mais pobres para não aumentar os impostos aos mais ricos. Num mundo a preto e branco, talvez Obama fosse progressista. No mundo a cores, Obama é apenas mais um preto de risco ao lado.


Para dizer a verdade, eu nunca acreditei que ele pudesse. A minha candidata era a Hillary Clinton. Não por ser mulher, muito menos por ser branca, mas porque me parecia ter uma ideia refundadora para a economia nortamericana. Senão mais humana, ao menos tão bem sucedida como a do marido.
Todavia, logo nas primárias ficou claro que ela era o alvo a abater pelos barões do dinheiro democrata. Barões e dinheiro que caíram todos no colo daquele aparente outsider de pele escura e nome ecuménico. Com um discurso de pastor baptista, porte atlético, voz colocada e família BASP (Black Anglo-Saxon and Protestant). E com uma excepcional equipa de publicitários que pegaram no mote dos direitos civis — I have a dream — e o transformaram no pesadelo de um Guterres à nortamericana. Já se escreveram livros inteiros sobre como foi tão exemplarmente reciclada, quer a linguagem, quer a iconografia do construtivismo soviético, para a campanha presidencial de 2008. Ainda estou para ver como vão os spin doctors revendê-lo em 2012.

Tal como Bill Clinton, também Obama conseguiu pôr a votar os jovens e as minorias étnicas que, habitualmente, don’t give a shit. Mas as comparações acabam exactamente aí. Enquanto Clinton vendeu realidade — It’s the economy, stupid! — Obama vendeu amanhãs que cantam — Yes we can. Enquanto Bill Clinton fechou algumas guerras, melhorou a segurança social, pôs a economia a funcionar e equilibrou as contas públicas, Obama mantém duas dispendiosas guerras em banho-maria, financiou os banqueiros e os especuladores em vez de criar riqueza à nação, manteve os impostos dos ricos a voar baixinho e apenas conseguiu uma pequena melhoria na segurança social que, agora, vai ter de cortar da despesa pública.

Lembram-se das promessas da candidatura Obama? Yes i do: extinguir Guantanamo em três meses, retirar do Iraque em onze meses, criar milhões de postos de trabalho, relançar o Medicare.
Guatanamo, essa aberração neocolonial e imperialista (a vulgata marxista-leninista é para ser usada quando é preciso), continua a envergonhar os avós fundadores. Não apenas por ser uma prisão ilegal, ao abrigo dos princípios do primeiro estado de direito do planeta, mas também por estar em território cubano ilegalmente ocupado. No Iraque mandou recolher à segurança da Green Zone, mas o preço da diária não baixou por aí além. No Afeganistão até faz lembrar o Marcelo Caetano a negociar, pela calada, a retirada da guerra colonial o mais airosamente possível. E quanto ao Medicare e ao relançamento da economia, ficou-se pela mediática escolha de um cão d’água algarvio para pet of the nation.
Tudo somado, a defesa continua a gastar o dobro da segurança social. Contudo, os cortes na despesa vão incidir sobre os parentes pobres, não sobre a guerra contra os mouros. A alternativa seria, finalmente, pôr os que ganham mais de 200 mil dólares por ano a pagar impostos, como na era Clinton. Obama teve dois anos para mudar esta aberração ultra-liberal com o Congresso e o Senado do seu lado. Mas Obama era, apenas, mais um bem sucedido Pai Tomás que andou em Columbia e Harvard. E que não os teve pretos, como nunca acreditei que os tivesse, para resolver o problema. Quando finalmente se deu conta que a economia não descolava e a dívida pública se acumulava, percebeu que tinha que ir buscar aos ricos uma parte da receita. Tarde demais. O Tea Party comeu-lhe os biscoitos na cabeça.

Yes he could. Mas não quis. Estou convencido que este nobel da paz ejaculação precoce queria para si o papel que, efectivamente, está a fazer. Tal como estou convencido que o mundo não se distingue entre pretos e brancos, amarelos ou castanhos. Como sempre, o mundo divide-se entre ricos e pobres. E, por muito preto que seja, Obama está do lado dos ricos. É mais um preto de risco ao lado. África está cheia deles: em Angola, na Líbia, na Somália. E é essa a tragédia dos pobres pretos. Vão pela cor. E não conseguem deixar de ver o mundo a preto e branco.

Sim, nós também podíamos

Não vale a pena chover no molhado. No entanto, se o governo vai ter que aumentar o IVA do gás e da electricidade já em Setembro, muito se deve à derrapagem do défice da Madeira em cerca de 230 milhões. Como muito bem assinalou Alberto João Jardim, isto não é nada de novo. Claro que não. Ao que se sabe, a dívida pública total do Calhau rondará os cinco mil milhões. Se tivermos em conta que são menos de 250 mil ilhéus e que o país tem cerca de 11 milhões de otários, Portugal deveria ter (regra de três simples) uma dívida de 220 mil milhões, em vez dos 150 mil milhões que se calculam muito por cima.
Com auto-estradas e túneis que não levam a lado nenhum (não se esqueçam que se trata de uma ilha onde, ainda por cima, só pouco mais de 30% do território é efectivamente habitado), a Madeira continua a ter um nível de miséria demasiado alta, mesmo para os padrões nacionais. E, por muito que custe, continua a fazer parte dos roteiros de turismo sexual. Os rapazes dos bairros pobres do Funchal, quando novos servem de recreio aos velhos pedófilos, quando crescem servem de recreio às estrangeiras velhas.
Para onde foi então tanta despesa pública, se os pobres ilhéus continuam tão pobres de espírito. Porque é que, apesar da má educação dos madeirenses em geral, da má gestão do governo regional e da má digestão do Alberto João, ainda ninguém, no ‘Contenente’, fez a folha a este animal político que, se Deus quiser e a saúde o ajudar, ficará mais anos no poder com eleições que Salazar com a ditadura? Porque o off shore é bom para a economia ou para as finanças públicas? Como, se mais de 90% dos negócios sedeados no off shore não pagam impostos e, muitos deles, nem despesa fazem, já que apenas mantêm um apartado no Calhau?
A Madeira lava mais branco e há quem tenha muito para lavar? Acertou.

De maneira que, nestes tempos de austeridade, nós podíamos (e devíamos) livrar-nos daquela colónia que só traz prejuízo e maus presságios. Todavia, em vez da independência com que a Besta regularmente nos tenta assustar, deveríamos pensar em privatizar o Calhau. E até, eventualmente, reservar uma golden share. Just in case. Livrávamo-nos da despesa e do enxovalho, e amortizávamos alguma coisa à dívida pública (ao contrário da laranjada do BPN, oferecida de borla à cleptocracia angolana representada por Mira Amaral, o mais bem sucedido super-reformado do panteão cavaquista).
Cá por mim, podem indignar-se à vontade com a ideia da privatização da Madeira, mas a Rede Eléctrica Nacional e as Águas de Portugal fazem muito mais falta ao ‘Contenente’ que a Ilha Adjacente do Alberto João.

Atirem-me água benta

A Renova—Fábrica de Papel do Almonda, Torres Novas, foi fundada por David Ardisson em 1918. Quando em 1990 se virou para o mercado exterior, era já líder nacional no papel higiénico, guardanapos e lenços de papel, etc. Em 2002 inovou radicalmente a comunicação da marca ao introduzir sex appeal nas suas campanhas publicitárias. Embora a campanha da Grey tivesse demasiado gay appeal, ou talvez por isso mesmo, começou a ganhar prémios nos festivais de publicidade e serviu de mote a um concurso da reputada Photo francesa. O hype atingiu o paroxismo quando a marca se lembrou de lançar o hoje famosérrimo papel higiénico preto. Seguido de outras cores igualmente inóspitas para o asseio rabial, a Renova expandiu-se viçosamente para o mercado externo, que representa já 50% do negócio.

Aqui chegados, chegou também o papa a Madrid. E, num mercado onde é líder nos guardanapos, a Renova resolveu aproveitar a visita de SS Ratzinger para lançar um pack de recepção ao papa: dois rolos de papel higiénico, um amarelo, outro branco, as cores do Vaticano. A ideia (que, pessoalmente, me agrada) consiste em atirar-lhe, à passagem no papa-móvel, com os rolos de papel higiénico, em vez das habituais serpentinas carnavalescas.
Quando ouvi isto a primeira vez, pensei tratar-se da rábula de um atrevido com invulgar sentido de humor, tipo Alberto Pimenta (vide, entre outros, A Visita do Papa, & etc, 1982). Mas não — é mesmo um produto da Renova.
Ou fui eu que me desactualizei, ou anda tudo maluco. Uma coisa é fazer outdoors com jovens nuínhos a brincar às casinhas com rolos de papel higiénico. Outra é propor aos reaccionários católicos madrilenos que tentem acertar na mitra papal com rolos de papel higiénico. Como cantava o Rui Reinhinho em 1988, “Ai, ui, atirem-me água fria”.

 

O anúncio em epígrafe é da autoria da Lowe, Atenas. Não sei se ganhou alguma coroa de louros nas olimpíadas de Cannes, mas leva um Leão d’Ouro do meu coração.
“Ai, ui, atirem-me água benta” é um excerto da letra do maxi-single Vídeo Maria dos GNR, EMI, 1988.


UM OLHO NO BURRO | crónicas engajadas de um redactor free lancer | 10