Vitórias & morais

Na noite da vitória, Cavaco mostrou ao "português do povo" como se dispara pelas costas. Se foi triste de ver, foi muito mais triste de ouvir discurso tão baixinho, tão coitadinho, tão cobardezinho. Entretanto, o candidato sem marquises de vidro escolheu para encerrar a campanha o Restaurante Questão Moral. Um nome realmente muito apropriado.

Cadernos e cartões. Oficialmente, em 2006 os eleitores inscritos eram 8,8 milhões e em 2011 subiram mesmo para 9,6. Tá-se mesmo a ver. Então, vejamos. A população nacional não ultrapassará muito os dez milhões e meio. Se retirarmos os 20% abaixo dos 18 anos, no máximo serão oito milhões a poder fazer prova de vida. No tempo do Salazar os mortos tinham direito de voto. Agora já não votam, mas sempre é milhão e meio de zombies fora das urnas. O que atrapalha as contas. Ainda mais, porque mesmo alguns dos propriamente vivos, por via do engarrafamento digital, não conseguiram votar. Deixar tudo para a última, confiar na sorte e não fazer testes — parece tudo demasiado familiar, não parece? É Portugal, já ninguém leva a mal. Desta vez, valha-nos isso, dois directores demitiram-se. Vá lá. Se a moda pega vão abrir muitas vagas no topo da função pública.

Abstenção. A haver um vencedor nestas eleições, esse foi, sem dúvida, a abstenção — 53,4%. Um recorde assim não pode ser explicado com o frio, o aumento dos mortos-vivos e as trapalhadas da cidadania electrónica. Até porque os dois principais candidatos perderam, respectivamente, 500 e 300 mil votos reais.

Brancos e nulos. Os nulos duplicaram — 86 mil. Dá que pensar. Mas nada comparado com os mais de 190 mil brancos. Ou a minha aritmética está errada, ou o Senhor Branco ficou em quarto lugar, logo à frente de José Manuel Coelho. E aqui já nem vale aos cavaquistas invocar o frio, os mortos-vivos, etc. Estes foram mesmo lá e quiseram mesmo votar — em ninguém. Quando, em 2006, haviam sido apenas 58 901. O que, na altura, dava apenas para vencer o saudoso maoista Garcia Pereira (que, este ano, finalmente arrumou as botas e se converteu ao alegorismo de esquerda).

Defensor do Minho. O homem até tem a sua pinta. É um verdadeiro gentleman farmer, como diriam os ingleses. Ou um cavalheiro da província, como diriam os minhotos. Ou um regionalista assumido, como diria o próprio. O problema, ó doutor, é que isto das presidenciais é uma questão nacional. E, a não ser que se tenha metido nesta trapalhada apenas para poupar ao Alegre a chatice de falar na vigarice do BPN, escusava de se ter dado à maçada. Guardar o fôlego para a próxima temporada da lampreia seria igualmente útil para o turismo minhoto. E não se apoucava assim em feiras e mercados, de folheto na mão, à antiga, a ouvir ex-moçoilas do campo lembrar-lhe pouco vistosos trabalhos de medicina rural. Vocemecê é o Júlio Dinis da política moderna, que diabo. Bem que podia ter passado o frete a um jovem xuxa. Perdão, turco.

Mais uma vitória, camaradas. Claro que foi mais uma grande vitória da classe operária, em Portugal aparentemente reduzida a 300 mil deserdados da terra. Isto pressupondo que os eleitores do Cavaco, afora todos os outros, são burgueses e tal. A elevada abstenção ainda consegue maquilhar a percentagem — uns honrosos 7%. Contudo, do Jerónimo de Sousa-2006 para o Chico Lopes-2011, desapareceram 165 mil votos. Ou seja, mais uma vez não sendo a aritmética traiçoeira, quase 1/3 do eleitorado comunista, verde e intervencionista de esquerda (seja lá o quisso for). Seria interessante saber, ao certo, quantos dos 300 mil resistentes não são funcionários nas autarquias de Abril, nas corporações sindicais e no partido propriamente dito. Só por uma questão de aritmética. E de Confiança.

Depois da abstenção e da marquise presidencial, José Manuel Coelho foi o terceiro mais notado na noite de 23 de Janeiro, Dia Mundial da Liberdade. É tudo uma questão de números — e 190 mil é um número realmente impressionante. Que ainda teve o hilariante bónus de deixar histéricas as vestais da política nacional-cançoneteira. Com um actor desempregado do Calhau, um carro-funerário, um taxi, alguma imaginação e muito sentido de humor, o deputado autonómico aproveitou a boleia da curiosidade mediática para se divertir que nem um Cabinda (metáfora aqui escolhida, apenas porque se trata de outro enclave português ainda não definitivamente resolvido em termos de Direito Internacional). E, já agora, escolher o Restaurante Questão Moral para sede de candidatura foi um belo remate para esta rábula muito bem feita. Espero que ter obtido quase 39% na Madeira (contra 44,2% de Cavaco) e de ter mesmo ganho no Funchal, Machico e Sta Cruz, não inibam o simpático Coelho de verificar as asas antes de se meter noutros voos. No 'Contenente' valeu apenas 4,5%. Ou seja, não dava sequer para mandar declamar um Alegre. E se, na Madeira, votaram nele quase 40% de macacos, é apenas porque são tão madeirenses como ele. O problema é que Alberto João ainda é mais. E continua a ter a faca e o orçamento na mão.

A importância de ser Fernando Nobre. O ex-humanista, e actualmente político estagiário do centro-esquerda, também fez sua mais uma vitória moral. É um bom passo e mostra já algum progresso por parte do caloiro nos ínvios caminhos da política. Se preserverar, em breve pode mesmo alcançar a profissionalização. Bom, esperemos que não. Não há mais paciência para este Possidónio Pais que anuncia tiros no seu glorioso caminho para Belém e invoca fantasmas dos velhos fadunchos de faca e alguidar.

Manuel Alegre, Aristocrata da Esquerda e da Beira Litoral. Ele que rasgou as vestes de vergonha por ter cometido o pecado mortal de participar num anúncio do demoníaco BPP. Ele que, em jeito de confidência cor-de-rosa, confessou ao Público ter perdido a virgindade com uma das criadas lá de casa. Ele que foi antifascista e sofreu o exílio de Argel. Ele que que até fez fados para a senhoradonamália. Mas ele, o povo, tem destas coisas. E deu-lhe 300 mil votos a menos. Como diria o poeta bíblico — quem com ferros mata, com ferros morre.

Cavaco, outra vez. É a Lei de Murphy — se ganhasse à primeira, ganharia à segunda. A verdade é que, feitas as contas, perdeu meio milhão de votos, apesar do universo eleitoral ter crescido quase um milhão. Ainda assim, e para todos os efeitos, ganhou. E aproveitou o discurso que deveria ser de vitória para, pelas costas, insultar alarvemente todos os adversários — quer infames candidatos, quer putativos jornalistas por conta — aos quais se tinha obstinado a responder na altura própria. Nas alegações finais afirmou, em sua defesa, que "os portugueses condenaram nas urnas todos os que me difamaram". Já se sabe que Cavaco não é reconhecido pela argúcia e imagina-se que os conselhos das primeiras damas também não lhe sejam de grande valia, mas talvez não fosse bem isto que ele devesse invocar em defesa da honra alegadamente vilipendiada. É que nesta urna cabem igualmente Valentim Loureiro, Fátima Felgueiras e, até mesmo, o efectivamente condenado a prisão Isaltino de Morais. Ou seja, Cavaco não só não tem qualquer sentido de estado, como é tolinho. E para melhor o provar resolveu, olimpicamente, abdicar do salário de PR. Chamando assim a atenção para o facto de manter duas reformas, uma principesca do Banco de Portugal, a outra mais normal da Universidade. Bem, não se pode acusar o homem de não saber, ao menos, fazer contas de somar. Porém, tendo em conta que ainda está no activo, talvez fizesse mais sentido abdicar das reformas. Mas, enfim, é o populismo cavaquista no seu melhor. Coragem portugueses, já só faltam cinco anos.

Há vitórias morais e imorais. E não se fala mais nisso. Mas onde colocar o belo passe de peito de Joselito Sócrates? Livrou-se do Alegre com um simples — "a candidatura não era do PS, era do Manuel Alegre, apoiada, entre outros partidos, pelo PS". Que os militantes tenham claramente votado em todos os outros menos no candidato-poeta, foi uma porta que abril abriu. E foi o próprio Alegre quem, há 5 anos, a franqueou pela primeira vez. De maneiras que, para acabar a faena em beleza, Joselito rematou ainda com uma elegante chicuelina à oposição — "a vitória de Cavaco foi uma vitória da estabilidade". Sendo que, naturalmente, a estabilidade governativa é ele. Embora tudo leve a crer que não durará até ao próximo orçamento. E que outro transmontano, um pouco mais jovem, o irá substituir. Isto, realmente, vai bom é para os Coelhos.


PS (salvo seja): Coelho à Bulhão Pato. Receita de "Coelho frito com amêijoas", no original, gentilmente rapiocada in petiscos.com

Ingredientes: coelho, amêijoas, alho, louro, vinho branco, cominhos, sal, azeite, vinagre. Tempera-se o coelho com sal, alhos, louro, uma pitada de cominhos e um pouco de vinagre (pouquinho) e deixa-se marinar algum tempo, de preferência de véspera. Num tacho, deita-se o azeite e alhos esmagados e frita-se aí o coelho. Quando estiver bem loirinho, deita-se um pouco da marinada e alguma água das amêijoas que entretanto se abriram. Mexe-se bem, deixa-se acabar de cozinhar o coelho e, por fim, junta-se as amêijoas. Serve-se polvilhado de coentros picados.

 

Um olho no burro | Crónicas engajadas de um redactor free lancer | 02