Prácabar de vez com a agricultura

“Foi em Setembro”, recordava Vítor Espadinha em 1978. Na verdade tinha sido em Abril e a cultura era o pouco que sobrava da Revolução. 37 depois, já nem isso. A prová-lo está a escolha do judeu-novo Francisco José Viegas para a comissão liquidatária da cultura. Pimba.

Para arrumar logo de entrada com a etimologia, CULTURA deriva do latin COLERE que, por sua vez, significa cultivar. No sentido agrícola, bem entendido. E terá sido durante o iluminismo que a palavra cultura apareceu, pela primeira vez, associada ao conceito de civilização.

Nem vale a pena dizer que esse erro das elites intelectuais dos séculos XVIII e XIX, confunde cultura com desenvolvimento, educação, bons costumes, etiqueta e um certo saber estar. Mas vale a pena perceber que, a partir pelo menos de meados do século XX, a essa cultura de elite se sobrepôs, para o bem e para o mal, a hoje omnipresente cultura popular, ou de massas.

Ainda assim, Lenine, um dos que mais peroraram, primeiro para o povo, depois em nome do “mesmo”, criou o espantoso argumento dois-em-um — A Vanguarda da Classe Operária. O que poderá ser esta vanguarda da classoperária senão um restyling da tal aristocracia intelectual da idade da razão?

Segundo a vastíssima Wikipedia há praí 170 definições de cultura por filósofos, sociólogos, antropólogos, críticos de artes e literaturas, gastrónomos, comentadores desportivos, etc. Mesmo aceitando como definitiva a fragmentação pós-moderna, é muita definição para uma coisa tão simples como apanhar batatas, pisar vinho ou britar avelãs — ou seja, a actividade primária que Cavaco Silva trocou por meia dúzia de couves de Bruxelas.

Durante décadas esta dita cultura foi arma de arremesso das esquerdas em geral. Veja-se, entre todos, o caso português. No tempo do senhor Dom Carlos, rei da pocilga (como o próprio lhe chamava), Portugal era um dos países mais analfabetos da Europa. Os republicanos, munidos de virtuosas intenções, aldrabaram a língua portuguesa introduzindo, por decreto de 1911, uma nova grafia da língua, partindo do princípio que os portugueses eram analfabetos, não tanto por não irem à escola, mas apenas porque a grafia era complicada, com tantos i-gregos e consoantes dobradas e assim. É claro que Salazar, embora com intenções menos nobres, percebeu que controlar as massas passava, antes de mais, por construir escolas. Não uma escola qualquer, mas a sua, a do livro único e da ruralidade bendita, dos lavores femininos e da moral & religião. Não admira que, em 1936, finda a reforma do Estado Novo, o Ministro da Educação Nacional, António Faria Carneiro Pacheco, tenha proclamado — “o ABC foi legalmente derrotado por Deus”.

Em 1974 a cultura saiu à rua, mas por pouco tempo. Logo chegou a primeira década cavaquista, onde pontificava uma cultura de gloriosos subsídios europeus para tudo e mais alguma coisa. E de onde sobressaiu Pedro Miguel Santana Lopes, o homem que conseguiu convencer Chopin a tocar violino.

Depois veio a tralha guterrista e, com ela, o primeiro Ministro da Cultura — o bem preparado, mas ainda mais vaidoso, Manuel Maria Carrilho. Como Guterres queria, à força, parecer de esquerda, botou dinheiro na cultura. O Maria aproveitou e deixou obra. De pouca dura, porque, no segundo mandato, o Guterres fechou a torneira e o ministro foi obrigado a bater-lhe com a porta nas trombas.

Após o breve interregno Barroso-Lopes, veio a cultura de um engenheiro civil que achava que a tradição popular de cuspir mais longe e dar uns tabefes na patroa, não só era de homem e transmontano, mas “verdadeiramente” cor-de-rosa. Ainda assim manteve a cultura em pose ministerial, embora com orçamentos abaixo de direcção-geral — tipo ministra-cadela-de-faiança, sem ofensa para as canídeas, nem tão pouco para os barros vidrados.

E, por fim, veio a crise, a troika e o Passos Coelho, criatura que entende que a cultura é uma noite de fados no Senhor Vinho a levar com a jactância espirituosa do letrista José Luís Gordo. Vai daí escolheu um judeu-novo para chefiar a comissão liquidatária da cultura. E, convenhamos, entre um economista-Amadora e um engenheiro-com-um-nome-acima-das-suas-possibilidades, venha deus e escolha. A pobre cultura mais morta não podia estar. Só faltava passar-lhe a certidão de óbito. O mais barato possível. E quem sou eu, um meio-judeu incircunciso, para obstar à poupadinha escolha do nosso Primeiro Coelho?

 

O Papa não papa grupos

Um grupo de ex-jovens católicos pedofilizados pela padralhada irlando-americana meteu um processo por crimes contra a humanidade a SS Ratzinger pelo seu reiterado encobrimento da tal padralhada pedófila. Ná, sua santidade era lá “homem” para isso? No entanto, por via das dúvidas, o Vaticano nunca ratificou o Tribunal Penal Internacional. Nem ele, nem os camónes. Podem ser pedófilos e assassinos, mas parvos é que nem pensar.

 

Publicidade intruja

Em vez do clássico leve-agora-e-pague-depois, o Continente inventou o pague-agora-e-leve-depois. É apenas o tio Belmiro a endrominar o patego, convencendo-o a financiar a custo zero o seu lucrativo negócio de vendas a retalho. Cá para mim, e segundo o Código da Publicidade [Dec-Lei 330/90 de 23/10, nomeadamente o artº 11, nº 2, alínea b) e nº 3], estamos perante aquilo a que o referido artigo em epígrafe designa de Publicidade Enganosa. E muito manhosa, digo eu. O que, em Portugal, vale o que vale. Força Belmiro, o tuga está contigo. E votos de Feliz Natal com desconto em cartão.

 

 

Doutor Horroris Causa

O que nos leva ao “Eu conto com o Contenente”. Que até podia muito bem ser mais uma rábula domingueira do Alberto João. Contudo, não. Mas, por falar no diabo, no Calhau voltaram a dar-lhe a maioria absoluta. A mim parece-me que, desta vez, é uma vitoriazinha de Pirro. E, ao contrário certos encomendadores das têvês (Inês Serra Lopes, o ex-agente funerário do Público e o meu velho colega da FDL José Eduardo Martins, entre outros), fico muito feliz por ver que o artolas do Alberto João desta vez vai ter que apanhar as canas. É nestas alturas que um agnóstico impenitente se interroga — será que Deus não é mesmo capaz de existir e, apesar de pai ausente, ter um sentido de humor assim a dar pró divino?
Afinal, sempre vivi o suficiente para ver um buldogue a ganir como um caniche.

Almada às escuras

Do poder “regional” para o poder “local”, em Almada resolveram poupar na iluminação pública, apagando os candeeiros antes do amanhecer. Embora me pareça que a gatunagem não é mocha, ie, também não consegue ver a vítima na escuridão, a verdade é que o paroquiano tem sempre um medo infantil do escuro. As têvês reportaram as queixas e o fatal Engº Matos veio explicar.

É bom que se diga que o Engº Matos, podendo assim à primeira vista parecer, não é o presidente da autarquia. É vereador de tudo e mais alguma coisa e ainda porta-voz para as coisas que chateiam o eleitor. Sendo ainda certo que o Engº Matos é daqueles que fala-fala-fala e, no fim, o paroquiano pergunta-se — o que é ele disse?
A verdadeira “presidenta”, a senhora dona Mimi, pode ser tudo e até católico-comuna, mas não não brinca com a pré-reforma. E, quando não se trata de inaugurar ou de aparecer na fotografia, atira o engenheiro às feras.

Ora, segundo este, a CMA gasta 3 milhões por ano em iluminação pública. Se dividirmos este valor por 365 dias, dá cerca de 8.220 euros por dia. Partindo do princípio que os candeeiros estão acesos 10 horas por dia, o custo-hora da iluminação pública são 820 euros. Aqui chegados, vamos partir do princípio que o apagão-poupança é de 2 horas por dia. Logo, a CMA irá poupar cerca de meio milhão por ano.

Parece dinheiro, e é. Porém, o Engº Matos, na mesma declaração televisiva, pedia sugestões ao cidadão para aumentar a poupança. Ó senhor engenheiro, é prajá.

Pode começar por eliminar as iluminações de Natal. Não sei quanto custa montá-las, desmontá-las, nem tão pouco o preço da luz, mas a verdade é que não servem para nada. Hoje o centro da cidade chama-se Forum Comercial de Almada-a-Nova, já tem iluminação que chegue e não precisa de mais ajudas do que aquelas que a CMA lhe deu ao assassinar o comércio tradicional de Almada-a-Velha.

Pode ainda poupar eliminando aquele espantoso exercício de estilo despesista que é o mini-bus. Custou muito dinheiro sarapintar uma linha verde por toda a cidade antiga, mais autocarros, mais motoristas, mais manutenção, mais gasóleo, e eu nunca vi mais que dois velhinhos envergonhados lá dentro.

Depois pode poupar no foguetório e nos concertos populistas na Praça São João Baptista. E, sobretudo, pode poupar nas jantaradas do 25 Dabril Sempre. Já toda a gente percebeu que o PCP gosta muito de encher a boca com o ditoso 25 Dabril, enquanto patrocina estátuas ao grande anti-fascista Cardeal Cerejeira.

Por fim, pode diminuir no pessoal, começando naturalmente por aqueles que têm cartão do partido e que apenas servem para mandar a plenários e manifes. E, jágora, porque não fechar todos os equipamentos onde os únicos conteúdos culturais à vista desarmada são as cagadelas das moscas e a cera dos funcionários?

Senhor Engº Matos, já que gosta tanto de fazer de pombo correio, faça-me o favor de dar um recado por mim à patroa — em vez de poupar nas velas, deixe trabalhar quem se levanta de madrugada para manter viva a cidade de Almada.

 

Créditos

Para Acabar de Vez Com a Cultura, Bertrand, 1980 (no original, Getting Even, Random House, 1971) é uma compilação de contos de Woody Allen, traduzido por Jorge Leitão Ramos.
Recordar é Viver é um single de Vítor Espadinha, Polygram, 1978.
Os cigarros El Che existem em versão Fumar Mata, à venda em tabacarias especializadas, com uma embalagem apropriadamente vermelha.
Alberto João Jardim “ganhou” um Doutoramento Honoris Causa em Ciência Política pela Universitas Sancti Cyrilli, em 2008. Os malteses também são ilhéus. Eles lá sabem.
Judeu-novo é um grande achado do meu amigo Viriato Teles que, seguramente, me perdoará o rapiocanço.
O senhor engenheiro Matos não é uma figura de ficção.

 

UM OLHO NO BURRO | crónicas engajadas de um redactor free lancer | 11