Os polícias da baixa

Afinal, a montanha pariu 36 secretários de estado. Mais onze que o orçamentado. Até há um para o empreendedorismo. E, no ministério da agricultura, como a patroa não usa gravata, os ‘ajudantes’ também não podem. Temos um governo modelo. Ou melhor, temos um governo minipreço.

Comecemos pela não eleição do pouco Fernando Nobre. Afinal sempre havia um plano bê. Extasiada por ser a primeira ‘presidenta’ (como finamente lhe chamou o verdadeiro número dois do governo), Assunção Esteves confessou — “Sinto uma alegria cristã”.

À esquerda, o simples facto de ser do sexo feminino era, por si só, suficiente motivo de regozijo progressista. À direita ficaram muito mais descansados com a profissão de fé de mais uma fausse blonde com um corajoso corte à Twiggy. E, talvez para não desacreditar a mitologia das loiras, a senhora fez um discurso de posse tão inchado de rebuscadas metáforas e alegorias e citações que, assim à primeira, me fez lembrar o falecido Bolinha Semiótica.

Vamos então ao governo minipreço. À boa maneira do professor Salazar, o novo governo de salvação nacional resolveu poupar nas botas. Só em ministros empocha um milhão ao contribuinte. Assim é que é. Porém, se pensarmos que, só por exemplo, o Ministério da Administração Interna deve 100 milhões aos fornecedores e precisa de outros 200 para salários, a venda em saldo do BPN vai recuperar para aí 100 dos 2000 milhões que já nos custou aquela laranjada e o buraco da saúde é um poço sem fundo, um singelo milhãozito parece-me assim um pratinho de amendoins. Ou de tremoços. Passos Coelho argumentará que um milhão é um milhão. Pois é. O último que eu vi usar este tipo de argumento — “um escudo é um escudo” — foi o Vale e Azevedo, que agora anda lá por fora a fazer pela vida.

Dando seguimento a este tipo de lógica e mostrando mesmo alguma proactividade, a ministra das lavouras mares e ambientes, Assunção Cristas, mostrando que não é loira nem conta ser nos tempos mais próximos, resolveu abolir as gravatas dos gabinetes, esperando que o exemplo seja seguido por todo o jovem e ecológico governo. Só em ar condicionado conta poupar uma pipa. Em guito e em emissões poluentes. É o dois em um, o nirvana de qualquer promoção. E no poupar é que está o governo.

Outro ministro oriundo da doutrina social da igreja, o mesmo Lambreta Soares que vai devolver a segurança social à Santa Máfia (vulgo instituições de solidariedade social), também prometeu poupar andando de mota sempre que possível. Supõe-se que, além do guito no combustível do Audi, este jovem pretenda também poupar nas emissões poluentes.

Com se vê, assiste-se a uma verdadeira revolução no protocolo de estado. Uma débâcle dos costumes só comparável àquela vez, aqui há atrasado, quando a senhora dona Bobone declarou ser piroso dar apenas um beijinho à americana. Em vez dos dois à antiga portuguesa.

Porém, o Processo Reaccionário Em Curso ultrapassou já os aspectos menores da farda e da montada, e chegou mesmo aos domínios mais profundos da linguagem. O super-ministro da economia, transportes e obras público-privadas também resolveu mostrar o seu empreendedorismo. Não só pediu que não o tratassem por ministro — “Tratem-me por Álvaro” — como, num almoço com um selecto grémio de investidores luso-brasileiros, resolveu sacar da metáfora futebolística para demonstrar a importância do trabalho de equipa.

Ora, dizia o companheiro Álvaro, não vale a pena ter um bom ponta-de-lança se a linha média não o acompanhar no ataque, assim como não vale a pena ter uma boa defesa se o guarda-redes for um ‘frangueiro’. Até aqui ainda vá lá, chamando eu contudo a atenção para o facto do jovem não estar a falar numa feira industrial na Baixa da Banheira, mas para a nata de uma das economias mais amigas do mundo. Até ver, convenhamos, serviria apenas para envergonhar o senhor de La Palisse se, perante o pigarrear de um dos presentes, certamente incomodado com o aligeiramento da linguagem, o nosso tenro Alvarinho não tivesse feito o seguinte aparte — “Eu cá não sou do Benfica”. Mais um erro de principiante. E dos fatais. Não lhe dou nem seis meses. E só espero que, até lá, alguém um pouco mais sénior o monitorize de perto.

Quanto à poupança na saúde, estamos garantidos. Com um ministro tão beato, deus e a virgem santíssima não deixarão de nos auxiliar. Nem que seja à força de missas e ladaínhas.

Onde eu não queria estar, nem pelas alminhas, era na pele do novo ministro da má-educação. Este não poupou nos exames e, dos infantes aos jovens adultos, destaram todos a chumbar. Ao contrário dos jovens magistrados, envolvidos no escândalo do copianço colectivo, que conseguiram todos ter positiva no segundo e exigente exame do CEJ. Provando, mais uma vez, que é mais fácil um burro passar pelo buraco da agulha que o sistema judicial tapar o sol com a peneira.

Pois, dizia eu, não queria estar na pele do nosso Prior do Crato. Não por causa da ignorância futura que fatalmente sucederá à ignorância passada, mas por ter de aturar o Mário Nogueira. No intervalo das reuniões, plenários, almoços de trabalho e reuniões dos comités centrais, garanto que a este eterno profissional do sindicalismo unitário não vai faltar tempo para melgar, ‘ad vomitum’, o coitado do ministro.

Entretanto (e isto agora não tem nada a ver), morreu a Zezinha Nogueira Pinto. Da direita-cristã à esquerda cor-de-rosa desataram todos a panegericar o virtuoso carácter da defunda. É humano, é simpático, mas é melhor não exagerar. Senão, vejamos. Maria José entrou na vida política, sem precisar de passar pela casa da partida, como subsecretária da cultura de Santana Lopes, aquando do primeiro cavaquismo. Depois mudou-se de armas e bagagens para o CDS, ao tempo do restyling em partido popular. Em Braga concorreu à liderança e, começando a mostrar o seu carácter, declarou que seria mais fácil derrotar o Paulo Portas que o Rato Mickey. Quando percebeu que o congresso, afinal, se virava para o futuro Paulinho das Freiras, resolveu avocar a alegadamente obscura vida privada do adversário e, à boa maneira das alcoviteiras de bairro, insinuou o célebre — “eu sei que você sabe que eu sei que você sabe que eu sei”. Mais tarde recuperou a independência e militou na coligação autárquica PSD-CDS que levou a câmara de Lisboa à falência. E veio a acabar deputada nas listas do PSD de onde tinha saído uns anitos antes. Ainda assim, uns e outras afirmaram sem rebuço que a Zezinha era uma mulher de carácter. Talvez queiram dizer de ‘carater’, segundo as novas regras da uniformidade esferográfica. Primeiro tiram-se as gravatas. Depois retiram-se as consoantes dobradas. E por fim nivelam-se os valores pelo menor denominador comum. Não é de agora. Já em 1970, num livro que apenas teve coragem de editar postumamente, dizia Jorge de Sena:

D. Tareja fundou (bastarda)
João I defendeu (bastardo)
João IV restaurou (bastarda a casa)
Pedro IV e Miguel ainda lutam
D. João VI chamava à mãe deles ‘a cabra’
— como pode em grandeza
alguém não ser suspeito de bastardo,
ou como algum bastardo não supor-se grande?

 

Então e a bófia, pá?

Isto fica sempre a faltar qualquer coisa. Desta feita, mais uma vez, foi o bom senso dos nossos atordoados juízes. Na mesma semana em que os cabecilhas de uma rede de tráfico de armas em Penafiel foram condenados a quatro anos de pena suspensa, dois agentes da PSP foram condenados a quatro anos de prisão efectiva por terem agredido um jovem alemão na esquadra do Bairro Alto.

Ora bem, fique bem claro que, mesmo tendo em conta que os juízes, bem ou mal, os soltam no dia seguinte, ainda assim não partilho da ideia que isto só lá vai à porrada. Esta repartição de segurança pública, em particular, é mesmo conhecida como a Esquadra dos Terramotos. Já vi um afro-lusitano a levar uns tabefes, no aconchego de uma rua lateral, apenas por ter o ar suspeito dos dreads da periferia. Sei mesmo do filho de um juiz conselheiro que foi espancado naquela esquadra, precisamente por ter invocado o santo do nome do pai juiz. Um e outro eram tugas, obviamente muito menos relevantes que um jovem alemão que irreflectidamente andava à pendura num eléctrico. Mas a verdade é que não deixa de ser curiosa a argumentação do juiz de Lisboa — “a actuação dos agentes põe em causa os fundamentos do estado”. Ficamos então a saber que o juiz de Penafiel considera que o tráfico de armas não põe em causa os ditos fundamentos do ditoso estado.

A corporação reagiu mal. Afinal, por mal ou por bem, todos já tiveram que molhar a sopa. É a vida. Quem anda à chuva molha-se e elas só acontecem a quem cá anda. Trinta e cinco agentes meteram baixa, todos no mesmo dia, em solidariedade com os azarados colegas. É muita baixa. É muito baixo. Sobretudo para agentes do Bairro Alto. E, fazer greve sem perder o dia no ordenado, até faz lembrar as greves parciais da CP, da Carris, ou da Transtejo.

E agora, pergunto eu, como vai um securitário governo de direita lidar com o problema? Vai haver inquérito? Processos disciplinares? Ao menos para os poucos que, afinal, só tinham um pequeno resfriado de verão e, ainda assim, se baldaram à ronda? Sendo certo que, agora, o Joselito foi para Paris estudar para Sócrates e já cá não está para levar com as culpas?

Não admira que o Correio da Manhã todos os dias faça manchetes com o aumento da criminalidade no reyno. Enquanto uns metem baixa, os outros redobram os trabalhos.

 

PS (stricto senso) — o nosso Tótó lançou um livro de crónicas. Regista-se que o novo pequeno timoneiro da esquerda cor-de-rosa está atento à política nortamericana. Com diria o Augusto Neves Fiat Lux, “aquilo é são países”. E, por lá, ninguém lança uma candidatura sem um livrinho para fazer a ronda do talk shows. “Compromisso Com o Futuro”, chama-se este apanhado de textos já prévia e penosamente publicados em condescendente papel de jornal. Em princípo, não virá dali grande mal ao mundo. Excepto para as pobres das árvores. Alguém lhes perguntou se queriam comprometer-se com este No Future?

 

O poema de Jorge de Sena chama-se Breve História Sócio-cultural da Nação, Incluindo um Anglicismo, in Sequências, Moraes, 1980.
As fotos foram gentilmente rapiocadas, respectivamente, à GQ e à Vodafone. Afinal de contas, a campanha da banda larga foi a única coisa bonita e optimista (e tecnicamente bem feita) que se viu em Portugal no primeiro semestre de 2011. Como diz o povo, o que é bom é para se ver. E a Soraia Chaves já é, por assim dizer, património nacional. Ou seja, do domínio público. Assim como, verbi gratia, a senhora dona Amália. Ah garganta linda.

 

UM OLHO NO BURRO | crónicas engajadas de um redactor free lancer | 09