Os mortos podem voltar

De repente, das profundezas do olvido mediático, antigos zombies da política, da economia e da finança regressaram para nos assombrar com as suas receitas milagrosas contra a crise. Quais virgens recicladas, até parece que não tiveram qualquer responsabilidade nos últimos vinte, trinta e alguns mesmo quarenta anos. Ditosa pátria que tais filhos tem.

Aqui há umas décadas, a Livros do Brasil editou, na sua duradoura colecção Vampiro, um livro fundador de H. P. Lovecraft — The Case of Charles Dexter Gordon — sob o vistoso título Os Mortos Podem Voltar. Mal ‘acomparado’, seria a mesma coisa que traduzir El Ingenioso Hidalgo don Quijote de La Mancha por O Livrinho Vermelho do Galo de Barcelos (que, por acaso, é um admirável título dos tempos do PREC). Ainda asim, terá sido a primeira edição em Portugal, o que já não é coisa de somenos.

Logo de entrada, Lovecraft afasta todo o possível suspense, indica ao que vem e deita mão à teoria dos ‘sais essenciais’ do pastor puritano Cotton Mather (Magnalia Christi Americana, 1702), que este, por sua vez, diz ter ido buscar a um tal Borellus, muito provavelmente o alquimista francês Pierre Borel (1620-89). Ora bem, segundo o pastor americano, Borellus teria deixado escrito que:

“hu philosofo pode, com os restos mortaes humanos e sem necromancea criminosa, fazer voltar a forma dos mayores defuntos desde o po das cinzas dos corpos deles.”

E, de repente, no auge da fantasmagórica terceira aparição do FMI, as televisões generalistas e as outras todas, à falta de melhor chouriço para encher, desataram a recuperar figuras do antigamente, algumas que eu de boa-fé supunha mortas e outras, ao menos, definitivamente enterradas. É o poder da televisão, poder que Borellus, ou Cotton Mather por ele, não podia conhecer, mas que prova em toda a linha a sua alegada teoria dos ‘sais essenciais’. Poder oculto já muito bem descrito, aliás, no Poltergeist de Tobe Hooper, em 1982.

E não me refiro apenas ao Eduardo ‘Pentelho’ Catroga, um dos principais obreiros do cavaquismo em que ainda hoje pachorrentamente vivemos. Refiro-me a praticamente todos os ex-ministros e ex-secretários de estado das finanças e das economias, como o Jacinto Nunes, o plano Mateus, ou o grande paladino Cravinho. Refiro-me também aos ressabiados como Medina Carreira, Campos e Cunha ou o ex-guterrista Doutor — perdão, professor catedátrico — Nogueira Leite. Refiro-me ainda a todos os que não se chegam à frente mas continuam a andar por aí, como Marcelo, Santana Lopes, Morais Sarmento ou Carrilho. Isto para já não falar do Adiantado Mental, do Cardeal, do Lei Barreto Não, do Bessa, do Beleza, etc., etc., etc., que se têm mantido vivos em talk shows onde opinam noite fora sobre os prognósticos só no fim da crise e a importância do desenho táctico 4-3-3 versus 4-4-2 no combate ao deficit.

Outro dia julguei até vislumbrar, entre duas garfadas de arroz de bacalhau e um dedo mais pesado na aleatória arte do zapping, a senhora dona Carmelinda Pereira, vinda dos abismos infernais do socialismo operário, também ela a perorar sobre o plano de ajuda externa, os juros da dívida soberana e os sacrifícios do povo escolhido.

Mas ele há dois irrealmente surpreendentes, embora por razões distintas. Um é o Veiga Simão, que conseguiu a proeza de, no espaço de uma vida apenas, e sem recurso a qualquer truque oriental de reencarnação, ser ministro de Marcelo Caetano, do Bloco Central e de António Guterres, isto em três décadas diferentes. O outro é o ex-sindicalista e ex-deputado europeu Torres Couto. Se pensava que este socialista de primeira apanha se tinha retirado definitivamente da vida pública para se dedicar à sua rábula de Angelina Jolie, desengane-se. Está aí outra vez, aparentemente mais vivo que nunca, a falar mal (não se dê ao trabalho de se espantar) do Sócrates e do PS. Ou, pelo menos, do PS do Sócrates.
Todos eles, uns mais que os outros, tiveram responsabilidades governativas, ou afins, nas supra-citadas áreas, alguns mesmo antes do 25 de Abril. Ou não? Em governos, ora de evolução na continuidade, ora mais-ou-menos-revolucionários, ora de centro-esquerda, ora de centro-direita. Ou não? Todos eles, cada um à sua maneira, contribuiram para o triste estado da nação. Ou não?

Como é então possível que, agora, assim tão despudoradamente, regressem dos túmulos para nos assombrar as santas noites. E ainda por cima, como diria um tuga em tuguês, ou um Catroga em vernáculo, com aquela ‘certeza no cagar’ que tão bem os caracteriza.

Será que, ao menos, investiram as poupanças numa prótese, mandaram fechar o hímen e se reinventaram como virgens recicladas? Não, senhor. São apenas a prova viva (repito, viva) de que os media detêm o segredo dos ‘sais essenciais’ e que, munidos desse poder sobrenatural, conseguem dar nova vida aos cadáveres ambulantes.

Porém, bem vistas as coisas, também podemos partir do tranquilizador pressuposto que, em nome da nobreza do horário e da imanência das audiências, apenas se trata de mais um freak show. Imaginemos que o processo eleitoral em curso podia caber fora do segmento política & economia e o remetíamos para o lazer & comportamento. E, então, casávamos Jerry Springfield com Júlia Pinheiro. O que poderia sair dali? Um little brother? Pois, como diria Peter Maynard, se este novo reality show de ficção da RTP1 não fosse tão assustadoramente parecido com o saco de gatos em que se transformou a minha bem amada República, atraver-me-ia a sugerir que — o Último a Sair não se esqueça de apagar a luz.

 

Os mortos podem votar

É de supor que, no dia 5 de Junho, os eleitores munidos de cartão de cidadão já não sejam barrados à porta por não constarem na lista. Contudo, tenho sérias dúvidas que elas tenham sido limpas dos defuntos. Não é que eles vão lá e votem — que, para isso, para regressarem mesmo do túmulo, tinham que ser convidados por um canal de televisão — mas que, em tese, podem votar, disso parece não restar qualquer dúvida. Se é certo que, no virtuoso ordenamento jurídico português, o registo é constitutivo — eles estão registados, logo podem votar. Ou podem abster-se, já que o não-voto dos eleitores-mortos conta mesmo para as contas da abstenção.
Assim sendo, para dar alguma utilidade à sua existência de mortos-vivos e prosseguir o grandioso desígneo da união nacional, propalado aos quatro presidentes nos discursos do último 25 de Abril, todos juntos não seremos certamente demais. Por isso, eleitor-morto, cumpre o teu dever cívico. A 5 de Junho levanta-te e vota. A bem da união.

 

PS (salvo ‘seija’) — no seguimento das comemorações do 25 de Abril, o deputado José Lello chamou foleiro a Cavaco Silva, em pleno Facebook, por este não ter convidado os deputados para o funeral. Como era bom de ver, levou um valente puxão de orelhas do partido. E teve que dar o dito por não dito. Arranjou, contudo, uma variante notável para o clássico recuo tático do político com problemas de coluna. Ele, realmente, disse o que disse, mas na privacidade do Twitter. Inadvertidamente, porém, o seu BlackBerry deu erro e ‘amandou’ o desabafo da foleirice presidencial para domínio público do Facebook. Ora lá está. Se o deputado José Lello não fosse também ele tão foleiro, teria certamente já comprado um iPhone. Ou até mesmo um Galaxy. E escusava de ficar assim tão mal no retrato.

 

UM OLHO NO BURRO | crónicas engajadas de um redactor free lancer | 06