O princípe com orelhas

A sorte de umas é sempre a pouca sorte das outras. Para que a primeira dama da república de Portugal pudesse receber a visita da princesa consorte do Reino Unido, a outra perdeu-se nas românticas noites de Paris. Mas se Diana ainda morreu princesa, Camilla não morrerá nunca rainha. Que pena.

Não deixa de ser curioso que a primeira visita de estado após a segunda tomada de posse de sua excelência o presidente da república de alguns portugueses tenha sido, justamente, sua baixeza real o príncipe Carlos. Porque pode até não parecer, mas os Silva’s e Windsor’s têm muito em comum. De origens sociais claramente opostas, estão ambos embutidos de funções de estado para as quais não estão minimamente preparados. Embora oriundos de regimes historicamente antagónicos, ambos servem para provar que a política, apesar da evolução das espécies, ainda mantém razões que a própria razão desconhece.

Primeiro, as primeiras damas. Quanto às semelhanças, pode dizer-se sem rebuço que, ainda que custe ser desagradável com as senhoras, ambas são absolutamente irrelevantes. Por muitos sorrisos que façam, por muitos chazinhos que tomem, por muitos fatinhos que vistam, não tem nada que enganar — o deus da elegância não quis mesmo nada, nem com a Maria, nem com a Camilla. E quanto às diferenças, ainda é mais fácil — uma usa chapéu, a outra não.

Quanto aos ilustríssimos maridos a coisa tem ainda menos que se lhe diga. Nada parece juntá-los, excepto talvez uma certa desgraciosidade que teria passado despercebida nos tempos em que os beneficiários do poder eram observados à circunspecta distância do preto e branco. Mas que, hoje em dia, facebookes e imprensas cores de rosa não permitem disfarçar, nem a um, nem ao outro, a deslumbrante tacanhez.
Embora nascidos em berços muito diferentes, aproxima-os contudo uma invulgar perspectiva de um irrecuperável passado colonial e o reiterado uso de um discurso inchado de metáforas rupestres. Embora a geografia entre o Poço de Boliqueime e o Palácio de Buckingham pareça irremediavelmente apartá-los, une-os um inseparável destino comum — o deverem ser ambos evitados como exemplos dos respectivos regimes.
É verdade que um é presidente repetente numa republica católica e o outro o eterno pretendente ao trono de uma monarquia protestante. Porém, tirando essa aparente diferença sematológica, o princípe que nunca será rei e o presidente de alguns portugueses vão ambos ficar na História pelas piores razões possíveis — um embaraça a monarquia, o outro embaraça a república.

 

UM OLHO NO BURRO | crónicas engajadas de um redactor free lancer | 04