O prepúcio de Deus

Pela mesma altura em que o Vaticano se preparava para elevar mais um santo padre a santo papa, um jovem português resolveu trocar os virtuosos dogmas da eternidade pelas efúlvicas quimeras do efémero. Se Deus não dorme, o Diabo sofre de insónias. E, no que toca à cobrança, um e outro são piores que os Judeus. Eu que o diga.

Ao contrário de muitas aleivosias da igreja católica (virgindade da santa, celibato dos padres, infalibilidade do papa, etc.), impostas como dogmas já praticamente no fim da Idade Média, o bizantino culto das relíquias começou muito mais cedo. Alegadamente, a primeira notícia remonta a 156 DC, em Esmirna (Turquia actual), e deve-se ao martírio de São Policarpo. Queimado na fogueira, os seus discípulos recolheram a cinza dos ossos calcinados e começaram a atribuir diversos milagres a este asséptico adubo sagrado. Diga-se, em abono da aqui despropositada e praticamente irrelevante verdade dos factos, que talvez esta mania tivesse sido rapiocada aos budistas, também eles, contra toda a lógica dos ensinamentos do Gautama, muito dados a este folclore teológico. Com efeito, ao que aparece — e é sempre de aparências que se trata quando se trata do budismo — também os alegados crentes no nirvana dão particular valor salvífico a cinzas e trapos.

Contudo, terá sido Flavia Julia Helena Augusta, também conhecida por Santa Helena, a grande responsável pelo ainda hoje vigoroso negócio do santo relicário católico. E apenas católico, já que os protestantes, tendo feito uma leitura um pouco mais atenta da Bíblia, concluiram que a adoração de santos e relíquias é uma idolatria pagã que a ideia do deus único deveria proibir.

Era esta santa senhora mãe de Constantino e a sua santidade deve-se, entre outros milagres apócrifos, a ter convertido imperador e império ao cristianismo. O que não é, nem de perto nem de longe, milagre de somenos importância. Hoje em dia, com o facilitismo do actual conselho de administração do Vaticano, basta ao pretendente fazer prova de dois milagres avulsos — nomeadamente uma cura total, completa e duradoura de uma conveniente beata em avançado estado de decomposição — para ver prontamente homologada a sua santidade.

Por exemplo, João Paulo II tinha facturado o seu primeiro milagre quando se safou, praticamente incólume, da facada mortal de um turco alegadamente ao serviço do Diabo Soviético, aqui intermediado pela seráfica secreta búlgara. Como se sabe, o próprio atribuiu esse milagre à sua correcta interpretação do famigerado 3º Segredo de Fátima — um homem vestido de branco virá para salvar a humanidade em geral e o mundo comunista em particular. Pois, para além de se considerar a si mesmo o segundo advento do messias, o santo papa polaco conseguiu recentemente o feito de curar, da doença de Parkinson, uma noiva de Cristo francesa. E com mais este milagre autenticado, nem o período de nojo de cinco anos exigido pelo direito canónico é respeitado — e João Paulo II será santo dentro em breve. Um belo panteão onde igualmente jaze o fundador da Santa Mafia, Josemaría Escrivá de Balaguer. E onde, se a Cúria Romana não ganhar algum juízo, muito rapidamente jazerá também SS Ratzinger. Desde os Bórgias e da Papisa Joana que não se via tanto despautério no seio da Cúria Romana.

Para além de que este novo milagre do Wojtyla parece um tudo-nada caseiro. Mais ainda que a personificação do 3º Segredo de Fátima. E isto por duas razões, a saber. À uma, a dita senhora é freira. Às duas, porque ela sofria alegadamente da mesma doença que levou João Paulo II a parecer o coelhinho Duracell durante a última década do seu extenuante pontificado. Assim não vale. Seria como ter o Olegário Benquerença a apitar sempre a nosso favor. E já nem aqui vou falar na redundância do processo. Um santo papa que, depois de morto, passa a ser um papa santo, é como a anedota da pescada frita — já estava a arrefecer no prato antes do arroz de tomate estar no ponto.

Bom, no mesmo ano de 312 em que Constantino venceu Magêncio em Ponte Mílvio, reunificou o império e lhe impôs o tal deus único tão estranho a gregos, romanos ou bárbaros, Helena fez uma peregrinação a Jerusalém. E, do mesmo modo que fez ver ao filho o célebre in hoc signo vinces, fez também ver ao mundo:

1 — que foi ali, exactamente ali, que o judeu foi crucificado, conclusão bastante razoável, mais metro menos metro;
2 — que o madeiro onde foi espetado tinha forma de cruz, coisa de muito duvidosa historicidade, tendo em conta a reiterada e bastamente documentada prática romana no que toca a castigos terminais.

Talvez sem querer, Santa Helena, foi a verdadeira mãe, não só do mundo livre, cristão e ocidental, como também da ainda hoje rentável indústria do turismo religioso. E ainda da proliferação do relicário católico, apostólico e romano. E digo proliferação com toda a propriedade, já que, só em pregos (três no suposto original) foram já contabilizados 700 genuínos desses ferrugentos mas imprescindíveis utensílios domésticos.

Não se pense, contudo, que o culto das relíquias sagradas era apenas mais um fétiche para entreter velhinhas cheias de esperança na cada vez mais próxima vida eterna. O financiamento das grandes catedrais medievais foi em grande parte garantido pela posse destas relíquias, quer em donativos, quer em procissões das velas. Desde os populares pedaços do lenho sacrificial, ou dos fabulosos santos sudários, até às lascas afiadas das unhas do Nazareno, o portfólio é praticamente infindável. Até porque, antes como agora, basta a simples concomitância geográfica para garantir santidade a terras, águas ou até dióxido de carbono previamente expirado pelo santo em apreço. Ora, toda a santidade tem um preço. E, já que mais não seja, dá sempre um belo recuerdo de férias — se vais a Vinhais traz um chouriço de porco bísaro, se vais a Fátima traz uma botelhinha de água benta.

No entanto, nenhuma destas relíquias é mais bizarra que o Prepúcio de Jesus. Que ele tenha sido circuncisado ao oitavo dia após o nascimento, era e é ritual assente entre os judeus praticantes. Que tenha sido embrulhado num naperon e preservado para memória futura já começa a parecer um niquito rebuscado. Que tenha também sido alvo do milagre da multiplicação, já me parece muito mais improvável, mesmo levando em conta a origem divina do circuncisado. Porém, locais como a Abadia de Coulombs (Chartres), Puy-en-Valey, Santiago de Compostela, Antuérpia, Besançon, Hildesheim, Metz, etc., reclamaram a posse de Prepúcios Sagrados. Embora as duas reinvindicações mais importantes pertençam à Abadia de Charroux e à Igreja do Santíssimo Nome de Jesus em Calcata. À primeira teria sido doado pelo próprio Carlos Magno no séc. IX, reconhecida a sua legitimidade por Clemente VII e dada como desaparecida no século XVI. Mais ou menos pela mesma altura, em 1557, é encontrada em Calcata, a cerca de 50 kms de Roma, e logo também devidamente autenticada. Tudo correria bem até 1856 quando, durante um restauro da Abadia de Charroux, os operários milagrosamente reencontraram o antigo Prepúcio Sagrado, o tal doado pelo rei dos francos.

Instalada a polémica, em 1900 viu-se mesmo obrigado o Vaticano a ameaçar de excomunhão a quem perorasse sobre o assunto. Em 1954 houve uma despenalização e a contravenção passou a ser apenas de vitandi, i.e., a evitar. Porém, em 1960, João XXIII, não só renovou a pena máxima, como acabou mesmo com o Dia da Sagrada Circuncisão ou Festa do Sagrado Nome de Jesus, no oitavo dia após o seu nascimento — que, a partir do calendário gregoriano, calhava a 1 de Janeiro — agora convertido em Solenidade de Maria Mãe de Deus. E Dia da Paz, após Paulo VI. E, sobretudo, Dia da Santa Ecuménica Ressaca em toda a cristandade.

Ainda assim, em nome de um costume contra legem mais comum do que supõe no seio da Igreja Católica, a aldeia de Calcata continuou a ostentar a pequena relíquia numa procissão anual até 1983. Nesse ano, coisas do Diabo, desapareceu da sacristia e da modesta caixa de sapatos onde o padre a guardava. Ao abrigo do decreto papal o esbulhado recusou-se a tocar no assunto. E ainda hoje toda a aldeia acredita que, uma de duas: ou a igreja o vendeu para descontar nas despesas de representação da Santa Sé, ou o escondeu bem escondido para evitar mais embaraços. Sendo que o embaraço maior seria mesmo continuar a chamar à colação o facto do messias, não só ter nascido judeu, como ter sido mesmo desprepuciado.

Ora bem. Que tem tudo isto a ver com o facto de, 2011 anos depois, um jovem ex-catequista de Cantanhede e então aspirante a modelo de virtudes, ter extasiadamente extraído o prepúcio de um velho pederasta com um improvável saca-rolhas? Suporão talvez que por causa da pedofilia implícita — 21 versus 65 anos — assunto tão caro aos santos padres em geral? Podia ser, mas não é bem por aí, já que com os padres, por força do celibato, a culpa morre sempre solteira. O que, seguramente, não irá acontecer no caso vertente. Segundo as modas estabelecidas nas prisões americanas, todos os dias alguém quererá acasalar com o querubim de Cantanhede.

Obstar-se-á, talvez, com o facto de assim fazer graça fácil com tão difícil desgraça. Porém, e em nome da sanidade mental, não consigo sentir qualquer simpatia por qualquer das duas vítimas. Uma, por muito que a Lili Caneças diga o contrário, porque era um reconhecido predador de jovens aspirantes a modelos — e que, ainda por cima, levava uma rica vida a falar mal da vida dos outros. A segunda apenas por ser mais uma barata tonta que assassinou a primeira em nome de uma abjecta futilidade de crenças e trapos.

E é por isso mesmo que ainda não consegui decidir, apesar de profundo debate com a minha própria consciência, a qual das duas vítimas devo atribuir, neste concurso de fealdade moral, a piedosa coroa de miss simpatia.

 

 

Relicarium

Segundo a classificação oficial da Igreja Católica Apostólica & Romana, as relíquias sagradas podem ser de:
— Primeira Classe: partes do corpo de um santo (ossos, unhas, cabelos, prepúcios, etc.);
— Segunda Classe: objectos pessoais de um santo (roupa, madeiro e pregos da cruz, etc.);
—Terceira Classe: qualquer objecto que tocou no corpo do santo, bem como água e terra dos locais sagrados.

Nota bem: é proibido, sob pena de excomunhão, vender, trocar ou exibir para fins lucrativos relíquias de primeira e segunda classes.

 

UM OLHO NO BURRO | crónicas engajadas de um redactor free lancer | 03