O Portugal dos grandinhos

Análise casuística dos candidatos e das campanhas. Tudo o que vocemecê precisa saber para não votar nas presidenciais. Ou então sim. Nem que seja para mostrar que não suporta presidentes com o rei na barriga.

Retrato dos vencidos:
Fernando Nobre, a virgem sem tempero. Com alguma sorte ele até é mesmo o grande humanista tal qual aparecia na TV. No entanto, afirmar em público que é o único candidato oriundo das províncias ultramarinas borra a pintura de qualquer sala-de-estar. É por essas e por outras que a política não é para amadores. Ainda assim, tem sondagens na casa dos 10%. O povo tá doido. E a vingança é um prato que se serve frio, pensará Mário Soares em francês.
Francisco Lopes, o funcionário portanto. Cada vez que se aproxima mais uma jornada de unidade e luta, os camaradas tentam meter baixa na reunião do Comité Central. Desta vez a palhinha mais curta saiu ao, até agora, discretíssimo Chico Lopes. De vitória em vitória até à derrota final, sempre é melhor que a alternativa possível, o Kim Il-Bernardino. Porém, as sondagens dão a entender que há muitas ovelhas a fugir ao estertor do centralismo democrático. O Chico bem se esforça por caber dentro da gravata, mas a verdade é que afirmar que é "Uma Candidatura Patriótica e de Esquerda" não ajuda por aí além. O povo ainda se lembra do tempo em que o Patriotismo era de Direita. E quem era de Esquerda soletrava a Internacional. Com toda a Confiança.
Defensor de Moura, e de touros bravos. Político profissional e aprumado, senhor da sua gravata a condizer, foi o único a aproveitar os debates na TV para dizer das boas ao Senhor Presidente do Conselho, perdão, da República. Como dizem os nortamericanos, é um trabalho alegadamente menos limpo, mas alguém tinha que o fazer. E lançou a única agenda realmente interessante desta que prometia ser a mais enfadonha de todas as campanhas eleitorais — a avaliação do carácter do actual PR. Contudo, ao contrário do grande humanista do hemisfério sul, o ex-autarca do norte não conseguiu beliscar o candidato oficial da estranha coligação PS/BE. Apesar de ter abolido as touradas em Viana do Castelo e de ter transformado a praça de touros num museu de ciência viva. E de ter até recebido "mais de mil imailes" pelo seu contributo local para a causa da internacional vegetariana. É pena que os imailes não contem nas urnas, senão este regionalista assumido ainda se poderia transformar num caso nacional.
Manuel Alegre, o cavalheiro da triste figura. Podia ter dado um belo político, se se tivesse dado ao trabalho. Mas gastou trinta anos a passear a sua costela antifascista em tertúlias e caçadas. Subitamente, deu-lhe a vaidade aristocrática para a rábula do velho rebelde sem causa. E resolveu concorrer contra o partido que lhe facilitou privilégios e benesses durante três décadas, sem nada lhe exigir em troca. Teve a sua vitória. De Pirro. Vaidoso como é, continuou a levar-se demasiado a sério. Erro fatal. Nesta campanha notou-se-lhe no gesto e na voz a melancolia da derrota antecipada. Tão desmotivado que até o simples do Cavaco lhe conseguiu ganhar o debate televisivo. Manuel Alegre calado era um poeta. Em bicos de pés é apenas mais um cavalheiro da triste figura. Os últimos a fazer aquele papel foram Basílio Horta e Ferreira Amaral. Pode não parecer, mas Alegre até sai da História razovelmente bem acompanhado.
Manuel João Vieira, o palhaço triste. O "Só desisto se vencer" da primeira vez teve graça. Da segunda vez todos perceberam que era apenas um truque de marketing para vender espectáculos nas semanas académicas. O que não tinha mal nenhum, já que Manuel João é um artista de espectáculos. Porém, desta vez já não dá vontade de rir. Nem de chorar. É apenas mais um triste a fazer pela vida.

Retrato dos vencedores:
Aníbal Cavaco & Silva, Ldo. Eis o homem que não lê jornais, jura que nunca tem dúvidas e raramente se engana, pede que o deixem trabalhar enquanto ajeita a melena, e come bolo-rei de boca aberta para enganar os jornalistas. Eis o homem que foi ministro das finanças de Sá Carneiro, primeiro ministro durante dez anos, candidato derrotado à presidência e finalmente presidente, e que ainda hoje jura a pés juntos que não é político profissional (que é um bocado amador, apesar da tarimbice, é mais ou menos óbvio — excepto para quem o vai reeleger). Eis o homem que, em campanha pela lavoura, se autocognominou "presidente-agricultor", garantindo assim um lugar na História ao lado do presidente-navegador, o saudoso Almirante Tomás. Eis o homem que, acossado pelas suas opacas ligações à grande laranjada do BPN, perde a noção do ridículo e proclama em público que ainda está para nascer homem mais honesto que ele. "Devo à providência a graça de ser pobre", dizia Salazar. Sim, senhor professor.
Dias Latoeiro, o candidato sombra. Pode andar calado que nem um "Rato" (talvez não por acaso a sua alcunha familiar lá nas berças), mas o ex-conselheiro é dos que mais tem a ganhar com a reeleição do velho amigo Cavaco Silva. Apesar de ter mentido em directo durante um inquérito parlamentar, alegadamente ainda continua a praticar em liberdade o seu swing nos verdejantes campos de golfe em Cabo Verde. E a sonhar com o dia em que vai regressar do exílio e recuperar a patine postiça das colunas sociais.
Duarte Nuno, o pretendente a de. Cada vez que a república passar pelo embaraço de umas presidenciais como as de 2011, os braganças poderão sonhar com os amanhãs que dançam. Se cada povo tem o Bush que merece, nós devemos ter feito alguma para continuar a merecer o próximo presidente de todos os portugueses.

O único que fica bem no retrato:
José Manuel Coelho, à Bulhão Pato. Contra todas a sexpectativas, conseguiu passar no fino escrutínio do Tribunal Constitucional. Mas, pensando melhor, também era o que mais faltava — que um deputado autonómico do "Enclave" não fosse presidenciável no "Contenente". Apesar de militante de um dos partidos mais à direita, apresenta-se com um discurso revolucionário de esquerda. Foi do pêcê, saiu por "razões burocráticas" e utilizou o PND como "barriga-de-aluguer". Usou como speaker um tal Bexiga que parecia mesmo um sem-abrigo do Calhau. E usou um carro funerário e um táxi para correr o país anunciando a morte dos "24 Anos de Cavaquismo". Sendo certo que não lhe roubou muitos votos, foi quem mais contribuiu para acabar com o mito de homem poupado e imaculado que Cavaco Silva tanto se esforçou por cultivar. Das excessivas despesas da presidência (quase o dobro da casa real espanhola), passando pelo raro privilégio de poder acumular várias reformas, até à casa de férias na "aldeia do cavaquistão", Coelho foi aquele que teve o desplante de chamar os bois pelos nomes e de gritar bem alto que o bolo-rei ia nu. E até mesmo Cavaco já terá pressentido o óbvio — pode ganhar novamente a faixa presidencial, mas perdeu para sempre a aura de santidade.