O fim do mundo, outra vez

Acossados por mais uma profecia do fim-do-mundo, desta vez de origem azteca, já ninguém sabe o que fazer à vida. Todos os anos, que me lembre, há uma para descartar. Desta vez, com a crise das dívidas soberanas, a crise do Euro e a crise do silicone das mamas em França, o bonus pater familiae deve pensar duas vezes antes de se rir. Embora, bem vistas as coisas, não lhe reste mais nada a fazer.

Há para aí uns dez anos, Sérgio Figueiredo, salvo erro no Público, escreveu uma crónica intitulada “O suicído do capitalismo”. Não foi das mais bem escritas que lhe li, mas foi, seguramente, das mais certeiras. Relembrada a uma década de distância, parece quase lapalisseana. Vivia-se, na altura, a ressaca da crise das chamadas bolsas tecnológicas, Greenspan tinha há um bom par de anos chamado a atenção para “a exurberância irracional dos mercados de futuros”, a crise passou, os especuladores assobiaram para o lado e continuaram desenfreadamente a especular, varreu-se a débacle para baixo do tapete e assim felizes da vida coninuámos, quase todos, arautos da classe operária inclusos, a gastar a crédito e sem grandes problemas de consciência.

Ora, em 2008 rebentaram as bolhas imobiliárias, os especuladores fugiram para a frente e especularam no petróleo, nós pagámos. Em 2009 esbardalharam-se os bancos, nós pagámos. Em 2010 começaram a sair catadupas de merda das chamadas dívidas soberanas, nós pagámos mais uma vez. Em 2011 o Euro começou a patinar e nós continuamos a pagar.

Vivendo despreocupadamente com o que não tínhamos, deslocalizando, em nome do lucro fácil, a produção industrial para os famigerados países emergentes, nem nos demos conta que, como diz o povo — “quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vem”. Afinal vem da China, como toda a gente hoje bem sabe. E não deixa de ser irónico que Sérgio Figueiredo, hoje administrador da Fundação EDP, tenha previsto, a uma década de distância, que a sua EDP seria um dos primeiros arietes da penetração da grande China na Europa. Nos EUA já eles estavam há muitos anos, detendo a maior parte da fabulosa dívida soberana nortamericana. Na Europa começaram a entrar pela mesma porta dos fundos, adquirindo dívida soberana portuguesa. Agora entram, finalmente, e em força, no mercado energético europeu, através da EDP. É apenas o primeiro capítulo dos muitos que se seguirão. É que a EDP, pode até parecer uma pequena empresa energética no panteão internacional, mas é uma das líderes no real mercado de futuros que são as energias alternativas. E os chineses já cá puseram o seu pezinho.

 

Sérgio Figueiredo tinha e não tinha razão. O capitalismo ocidental, agora em irremediável processo autofágico, estava suicidário há uma década atrás. O capitalismo propriamente dito nem por isso — estava e está pujantíssimo na China, no Brasil, na Índia, etc. Ou seja, nos tais mercados emergentes. Uma expressão tão falaciosa nos seus próprios termos como a outra — a tal dívida, tão soberana, que está nas mãos dos ex-escravos do capitalismo ocidental. Cá se fazem, cá se pagam. E, como mandam as regras do capitalismo, com muitos juros. Habituemo-nos.

 

Vá pró caralho

A 4 de Agosto de 2009 um cabo da GNR solicita uma troca de serviço ao seu superior hierárquico, que se opõe. O militar da GNR, repito militar, zanga-se e responde ao superior — Vá pró caralho. Acusado do crime de insubordinação, o juiz do Tribunal de Instrução Criminal manda arquivar. A hierarquia recorre. O Tribunal da Relação de Lisboa, através do juiz-desembargador Calheiros da Gama e do juiz militar major-general Norberto Bernardes, decide não dar provimento com o seguinte arrazoado: “A utilização da expressão — pró caralho — não é ofensiva, mas sim um modo de verbalizar estados de alma, (...) pois, resulta da experiência comum, que caralho é palavra usada por alguns (muitos) para expressar, definir, explicar ou enfatizar toda uma gama de sentimentos humanos e diversos estados de ânimo. Por exemplo, pra caralho é usado para representar algo excessivo. Seja grande ou pequeno de mais. Serve para referenciar realidades numéricas indefinidas: chove pra caralho, o Cristiano Ronaldo joga pra caralho, (...) não há nada a que não se possa juntar um caralho, funcionando este como verdadeira muleta oratória.”

Em primeiro lugar, a fundamentação factual e jurídica é, no mínimo, aberrante. Juridicamente, parece-me bizarro considerar que mandar um superior militar pró caralho revele apenas um “estado de ânimo”. Pode até bem ser, mas é ofensiva e um acto de insubordinação em si mesmo. Factualmente, o nosso relator deveria levar umas reguadas por confundir o português de Portugal com o português do Brasil. E aqui não há Acordo Esferográfico nem linguagem de caserna que lhe valham. Que eu saiba, em Potugal não se utiliza a expressão — pra caralho. Em Portugal, até ver, a expresão da rua é — como o caralho. Fiz o serviço militar obrigatório na Infantaria, militei longos anos na Faculdade de Direito de Lisboa e sou português há quase cinquenta. E só me apetece mandar o juiz conselheiro pró caralho. E não é uma questão de “estado de alma” ou de “muleta oratória” — é mesmo pró caralho que o foda (perdoe-se-me o galicismo). A ele e ao major-general que, até por ser militar, deveria ter mais juízo naquela cabecinha de pardal.

No entanto, caros portugueses, se um militar da GNR pode mandar um superior pró caralho e os doutos juízes-conselheiros da Relação consideram tal fraseado simples virilidade verbal, abre-se para todos nós, civis, uma nova janela de oportunidade no domínio da linguagem pública. Por exemplo:
— se o PR nos aconselha a dedicarmo-nos à agricultura, isto depois de ter trocado a “mesma” nos anos oitenta por meia dúzia de couves de Bruxelas, o povo pode muito bem mandá-lo — Pró caralho;
— se o Primeiro Coelho nos quer aumentar os impostos enquanto nos diminui os salários, não nos resta alternativa senão mandá-lo — Prá cona da mãe;
— e se o Cardeal Patriarca, ou o Papa-Criancinhas, vestidos de nosferatu e carregados de cachuchos nos dedos, nos vêm com as tretas da humildade, da solidariedade e da bondade humana, só podemos mandá-los, todos em uníssono — Prá puta que os pariu.

A boa, o fedor e a mázona

Não podia acabar estas crónicas senão como as comecei há um ano atrás — falando da publicidade, afinal o meu ganha pão nestes históricos tempos de azia colectiva.

Sem qualquer dúvida, a melhor campanha do ano é a da Vodafone, com a sempre espantosa Soraia Chaves. Não contentes em fazerem um excelente anúncio para a banda larga, foram repetindo a dose ao longo do ano. Grande campanha. Excelente em Portugal, em Cannes ou até na China.

Depois, vêm as piores do ano. E, exactamente, no mesmo segmento. Nem sei qual é a pior. Se o cansativo e fedorento exercício de estilo do Gatos para a MEO, se o miserável trocadalho encabeçado pelo Nicolau Breyner para a ZON. Boa ZON? Boa o caralho — abaixo de cão. Feliz ano novo para vocês também.

 

Créditos - O doutíssimo Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa tem a data de 28/10/2010. Refere-se ao Procº 1/09.3F1STC.L1-9 e teve como relator o juiz-conselheiro Calheiros da Gama. Absolutamente do caralho.

 

UM OLHO NO BURRO | crónicas engajadas de um redactor free lancer | 13