Isto está entregue à bicharada

Não sei o que me aflige mais. Se o escândalo sexual da bicha-mor do reyno com um empresário do norte, se o sorriso das vacas do inimputável, embora legítimo, presidente da República. Legítimo, mas nem tanto, quando afirma que “a democracia está a dificultar o investimento em Portugal”.

Não bastava termos um Coelho como primeiro ministro e um Relvas como segundo (ou vice-versa). Não bastava ter um companheiro Álvaro na economia que, de manhã, diz que a crise acaba em 2012 e, mais à tarde, reafirma que afinal ainda vai piorar antes de melhorar — ziguezagues que ‘os mercados’ adoram. Não bastava ter um ministro das finanças em câmara lenta que, mais parecendo ter falhado por excesso num casting do Manoel de Oliveira, poupa em tudo menos no tempo e na paciência do contribuinte. Tinham também que nos levar de abalada o mito-macho do empresário do norte — aquele que dá facadas imortais no casamento, mas com brasileiras ucranianas ou romenas, não com uma bicha a servir de fiambre.

Para que fique claro, nada me move contra a homossexualidade. Desde que não me metam a mão na perna, é uma opção de vida como outra qualquer. No entanto, a bichice irrita-me um bocadito. Só porque acho as bichas tão enfatuadas como aqueles azeiteiros que andam de camisa aberta e crucifixo ao peito. Dito isto, foi com enorme surpresa e descontentamento que soube do escândalo sexual que envolvia um aparentemente respeitável casal do norte com a bicha-mor do reyno.

Há duas versões para a descoberta do célebre vídeo que, juro-vos, adoraria poder ver. Na oficial, a PJ terá encontrado o tal filme durante buscas com mandado judicial. Segundo a outra, muito mais pitoresca, a respeitável esposa em causa terá pedido o divórcio com intuitos financeiros, acusando o marido rico de a ter obrigado a ter relações escabrosas com a dita bicha e o marido, tudo ao molho e fé em deus. O corno (com consentimento do ofendido, mas corno), querendo defender o seu património da ganância da adúltera (e com uma bicha, ainda por cima) entregou, como prova de que não a havia obrigado a tais práticas, o vídeo já acima referido por duas vezes. Desde o caso do arqº Taveira que não nos vínhamos de tanta galhofa. Não vos parece, como a mim, que esta chistosa rábula dá um novo sentido à expressão ‘pegar de empurrão’? Senão como é que a bicha cumpria a sua parte dianteira?

Bom, vamos lá então falar de coisas sérias. O PR terá afirmado, durante a visita oficial à Califórnia, não sei se antes ou depois da missa, ou da ‘medalhização’ do rei da batata-doce, que “a democracia está a dificultar o investimento em Portugal”. A minha fonte é a respeitabilíssima TVI, Jornal da Uma de 14/11/2011. Esta foi a introdução do pivot, depois passou para a tal missa e para a tal ‘medalhização’ do rei da batata-doce, a tripa começou a dar-me voltas e zapei agoniado. No entanto, que eu ouvi isto com estes dois que a terra um dia há-de comer, isso posso garantir.

Quando, aqui há atrasado, a Criatura inventou aquela cabala das “escutas dos émailes”, todos pensámos — tadinho, apanha-se mais depressa um assessor de imprensa mentiroso, que um velho coxo informático. Quando começou a falar do “sorriso das vacas” percebemos-lhe a senilidade galopante. Quando põe em causa a democracia em nome do investimento estrangeiro, torna-se um louco perigoso. A exemplo, aliás, duma grande amiga sua e ex-candidata a PM, Manuela Ferreira Leite, quando afirmou que o ideal para resolver os problemas económicos do país seria suspender a democracia durante seis meses. Todas as ditaduras começaram, mais ou menos, com esta ladaínha. A que mais depresa me vem à memória é a do Pinochet e dos seus boys de Chicago.

Será que ainda temos que entrar outra vez na clandestinidade para defender a Liberdade? Será que, afinal, o tragicómico Otelo não terá razão quando diz que pode vir aí outro golpe de estado? Ou, como muito se tem afirmado nos últimos dias, esses golpes de estado não terão sido teleguiados a partir de Bruxelas (eufemismo de Alemanha, como bem notou Ana Sá Lopes a propósito da Grécia e da Itália)?

 

O sorriso dos bóis

Por falar em bóis, isto agora não tem nada a ver. Atentem-me bem neste rabo. Diz exactamente e em excelente castelhano — A melhor carne argentina. Contra factos desta compleição não há argumentos que nos valham. Nem isto viria a propósito, não fosse ter-se dado o caso de termos aqui falado no sorriso das vacas. Havendo tal coisa, haverá seguramente o sorriso dos bóis. Eu cá sorrio sempre quando uma vaca de tão boa raça me exibe, assim tão despudoradamente, os seus vigorosos quartos traseiros.

 

 

Os padres, os feriados e a economia republicana

Não é de agora que se fala do excesso de feriados e, sobretudo, dos feriados que originam ‘pontes’. Em teoria, sobretudo no estado, mas também no privado, sempre que calha um feriado à terça ou à quinta, metade do pessoal faz um fim-de-semana prolongado. E a outra metade recupera na vez seguinte. Ou seja, em teoria, o país só pára pela metade. Mas a teoria não resiste à prática. Na prática, pára tudo. Os que ficam, fazem os possíveis por não fazer nada. E, mesmo quando algum mais afoito tenta fazer alguma coisa, logo descobre que mais valia estar quieto — falta sempre a pessoa que lhe poderia resolver o problema. Ou, se por acaso até está, não deixará de argumentar com a falta do beficiário da ponte.

Não é preciso ser catedrático (como, por exemplo, o PR diz que é) para perceber o que isto implica de muito mau para a economia, ponte após ponte, ano após ano. De maneira que, nestes amargos tempos de crise, finalmente o poder político arranjou coragem para tentar discutir este dossier. Porém, tão corajosos a aumentar impostos e a tirar subsídios de natal, no que toca aos feriados da igreja ficaram-se pelas meias-tintas.

Para que se entenda bem o meu raciocínio, sou republicano e anti-clerical convicto. Contudo, entendo que Natal e Páscoa são intocáveis, não tanto por serem fundamentais no calendário religioso, mas por fazerem parte da cultura popular. Raciocínio que se aplica naturalmente aos feriados municipais, na maioria os chamados Santos Populares.
No que toca ao Carnaval e ao Dia dos Mortos, esses nunca foram religiosos. A igreja tentou fazer um take over, mas o povo assobiou para o lado e continuou a praticá-los em moldes bem pagãos.
Agora, convenhamos, alguém me explica para que serve o Corpo de Deus, a Sra da Assunção e a a Sra da Concepção. Os próprios católicos, na sua quase totalidade, aproveitam-nos, até são capazes de ir à missa, mas não fazem ideia do que se trata. O Corpo de Deus é até, a meu ver, um feriado herético — Deus tem corpo? Do dia 15 de Agosto, o melhor é nem falar — uma virgem tomada por uma pomba pode assim ascender ao céu e perturbar a regra dos três simples, ou seja, da santíssima trindade? E no que toca ao 8 de Dezembro, convém lembrar que era o dia da padroeira do reyno no tempo dos Braganças, facto tanto mais estranho quanto vivemos há mais de 100 anos em regime republicano.

Pela mesmíssima razão, também não entendo para que serve manter o 1 de Dezembro. O dia da restauração não faz qualquer sentido. Primeiro porque o perigo castelhano há muito que se esfumou (hoje é mais bolas de Berlim). Depois porque, mais uma vez, se trata de um feriado que celebra a restauração da monarquia, não a República. E, mesmo este, fará hoje algum sentido? O pretendente ainda manterá hoje alguma pretensão? Cem anos depois o sistema republicano não é já um dado adquirido?

Pelo contrário, o dia de Portugal, o dia da Liberdade e o dia do Trabalhador são intocáveis. O primeiro por razões, parece-me, mais que óbvias. O segundo porque a Liberdade nunca está garantida e é preciso relembrá-lo, pelo menos, uma vez por ano (noutros países comemora-se no Dia Mundial a 23 de Janeiro, em Portugal o 25 de Abril está muito bem). O terceiro, porque é o dia do Trabalhador e, que eu saiba, são os trabalhadores (mesmo até o Amorim — esse, ao menos, ainda pratica a indústria) que fazem a riqueza das nações, não os banqueiros e os outros especuladores financeiros.

Ora bem, eu como cidadão posso ter a opinião que quiser. Não mando nada (se fosse eu a mandar outro galo cantaria, como diz o homem da rua), quem manda deve estar a marimbar-se para a minha opinião e os outros cidadãos são igualmente livres de fazer o mesmo. Ou seja, não represento nenhum partido ou qualquer outra instituição. Represento-me a mim mesmo e, às vezes, já me custa. Mas quando vejo a Igreja Católica Apostólica e Romana puxar dos galões para dizer que está disposta a trocar dois feriados civis por dois religiosos e que não admite que se toque no 8 de Dezembro, fico muito irritado. Sobretudo como cidadão da República Portuguesa. Bem sei que a igreja continua a ter demasiado poder, quer às claras, quer sobretudo às escuras, mas quero acreditar que as decisões sobre os feriados são do domínio do poder político profano, não do religioso. A não ser que esta révanche muito pouco católica de direita se prepare para rever a Constituição e acabe com o estado laico.
É deste tipo de golpe de estado que falamos, aqui, em Portugal?

 

UM OLHO NO BURRO | crónicas engajadas de um redactor free lancer | 12