Foi bonita a festa, pá!

© João Abel MantaO que é que Portugal, o Sporting Clube e a Segunda República têm em comum? Muito passado, pouco futuro. E a provar que mesmo o 25 Dabril Nem Sempre, Cavaco estabeleceu mais um marco na sua ‘magistratura de efluência’ — a união nacional sem cravos vermelhos. Excepto o velho Soares que, apesar do FMI e do protocolo cavaquista, se recusou a oficializar o enterro da Revolução e discursou de cravo ao peito.

À boa maneira dos políticos dados as honestidades olhos nos olhos, permitam-me introitar com uma declaração de interesses. Assim, e para que conste, pouco ou nada me move contra as instituições em epígrafe:

1 — tendo nascido nas colónias, não imagino como meu outro país que não Portugal — e, jágora, republicano;

2 — apesar de geralmente racional, sou lagarto não praticante;

3 — e, contra a ignara opinião dominante, não acredito que possa haver estado sem políticos, nem democracia sem partidos.

Estou por isso convencido que, sempre que os demagogos amadores, como Cavaco Silva ou Fernando Nobre, tentam desacreditar os políticos profissionais, isso só quer dizer uma coisa — que lá no fundo têm muitas saudades do partido único, embora evidentemente liderado pelos próprios. Em nome de um qualquer direito natural do qual só eles conhecem os princípios. E os fins.

Dito isto, deixemo-nos de fátimas e futebóis e concentremo-nos no triste fado de ser português. O primeiro culpado, podia até não ser judeu, mas era seguramente estrangeiro — um emigrante francês que casou com uma bastarda leonesa. O filho rebelou-se contra o primo suserano e fundou esta bela nação que, ainda hoje e apesar de tudo, dá pelo vistoso nome de Portugal.

Poucos e baixotes, éramos, no entanto, muito pró-activos. Afonso, por exemplo, podia ser mais iletrado que as ameias do castelo de Guimarães, mas era um rufia danado para a porrada. O que garantia, exactamente, o perfil adequado a um chefe de estado dessa época. Com a ajuda das cruzadas, uma espécie de FMI da idade média que nos iria cobrar em muitos dobros essa santa ajuda, rapidamente varremos a nossa quota de moiros até à Praia da Oura. Desenhámos, desta feita, as mais antigas fronteiras da Europa. Démo-nos até ao luxo de ter como CEO o mal-amado Dom Denis, um rei-poeta numa cristandade abençoada por analfabetos, um visionário maldito numa santa-terrinha que ainda hoje prefere recordar o milagre das rosas. Antecipámos em 1383 um modelo de revolução baseado, não no povo, como soi dezer-se, mas na malfadada burguesia — modelo que daria realmente frutos, mais de quatro séculos depois, com as Revoluções americana e francesa. E, sobretudo, um dia tivémos a sorte de ver nascer o messias lusitano, um príncipe entre os reis, o príncipe perfeito, el rei Dom João Segundo. Ou El Hombre, com muito bem lhe chamava a prima e rainha de todas as espanhas, Isabel a Católica.

O pai era acossado por delírios religiosos, uma maldição que não tardaria a levar o reyno à desgraça de Alcácer Quibir. Apanhado em França, quando resolutamente se dirigia em cruzada pessoal à Terra Santa, foi devolvido pelos gendarmes à procedência e oficiosamente interditado dos afazeres da coroa. O príncipe regente, um adolescente ainda a cheirar a leite, conseguiu o espantoso feito de tornar o mundo redondo e Portugal o maior império dessas novas redondezas.

Ora, desde então habituámo-nos a viver à grande e à portuguesa. Primeiro foram as pimentas das índias, depois os escravos das áfricas, depois os oiros dos brasis — e por aí fora, até à simbólica devolução de Macau mesmo no fim do século XX. Entretanto, com o 25 de Abril e a entrada na hoje União Europeia, ainda conseguimos enganar as tias ricas de Bruxelas, que hoje se limitam a olhar para nós de soslaio como para um primo pelintra que aparece à hora do chá, sem ser convidado, e se vai deixando ficar também para o jantar.

Durante estes cinco séculos só me lembro de uma voz, apenas uma, que se elevasse contra este desbaratar das riquezas arduamente arrebanhadas, primeiro além-tejo, depois além-mar. O Marquês de Pombal, ao contrário do Velho do Restelo, não se limitou a vociferar. Consciente de que desbaratar a herança nos levaria, mais cedo ou mais tarde, à indigência em que hoje nos encontramos, tentou controlar o comércio marítimo em geral e do Vinho do Porto em particular, até ali na mão de judeus flamengos e apóstatas ingleses. Sabedor da nossa dependência alimentar pugnou pelo cultivo de cereais, até então fornecidos pelos mesmos ingleses que, tal como todas as criadagens cobiçosas, nos continuaram delicadamente a comer bocados do império com alianças e mesuras. Consciente do mau karma que a padralhada há séculos nos trazia, expulsou simbolicamente os jesuítas. O problema é que um gesto simbólico não extingue nunca os parasitas e, com a morte de D. José, a beata da filha logo voltou a pôr o reyno nas mãos da providência.

Esta, também ela já fartinha de nos aturar, foi-nos deixando fazer monarquias constitucionais, primeiras repúblicas, estados novos, revoluções dos cravos, segundas repúblicas, democracias europeias, etc., continuando sempre alegremente a espatifar, primeiro os restos do império, depois os fundos europeus e, finalmente, o crédito fácil da agiotagem internacional.

É claro que este gastar sem haver um tinha tinha que dar mau resultado. E é claro também que, portugueses como somos, agora a culpa é da banca internacional, das agências de rating, da Merkel e de um finlandês ou de um dinamarquês ‘quaisqueres’. Por muito homens da mala que sejam — e são — a verdade é que não foram eles que se endividaram por nós. Limitaram-se a emprestar-nos o guito e, agora, a vir cobrar-nos a dívida com juros elevados. E, como não temos com que pagar, vão querer partir-nos uma pernita ou duas. É a vida — como diria um primeiro-engenheiro que aqui há uns anos deu à soleta quando percebeu que esta velha nação, afinal, era ‘verdadeiramente’ um pântano.
Atentem só no que diz do nosso Portugal um argentino muito lúcido e claramente muito bem informado, Hérnan Casciari:

Proxeneta por tradição, sendo o mais velho na Europa acha que os outros têm obrigação de o sustentar. E, para tal, deita mão a todos os estratagemas e mesmo à chantagem emocional. E quando é preciso até canta o Fado.”

Resumindo e concluindo. Ao contrário do que por aí de diz, a culpa não é do Sócrates. Não senhor. O Sócrates é apenas um aluno esforçado, bem falante e bem parecido, do cavaquismo desenhado nos anos oitenta pela criatura com o mesmo nome. Ou alguma santa irmandade por ele. Mas nem mesmo a essa criatura, nem sequer à outra de Santa Comba que aquelas tanto admiram, se deve atribuir o dolo eventual da tragédia lusitana. A culpa, caros concidadãs e concidadãos, é do Senhor Dom João II, que nos habitou, durante mais de quinhentos anos, a viver sem trabalhar.



© João Abel MantaE o futebol, pá?

Ainda é a única coisa com que se pode contar. A FPF continua a ostentar, 37 anos depois, o símbolo afadistado do salazarismo, com a sua bela cruz pró-suástica e as cinco vezes cinco chagas do redentor. O doutor Madaíl continua presidente dessa Federação de foras-da-lei que o futebol, mais ou menos por todo o mundo, continua a ser. Continua também a telenovela do alegado professor Queirós que, honra lhe seja feita, ainda teve artes para endrominar os ayatolas. Para variar, o Porto é outra vez campeão. Ao contrário do Mourinho, que este ano não. E o Benfica também, embora pareça continuar a acreditar que Jesus é o novo messias e que um dia verá a Luz num estádio às escuras. Bom, e no Sporting só nos resta um pensamento positivo: se correu bem no Porto e no Benfica, porque não há-de correr igualmente bem no Sporting? A mim parece-me que, com os novos dirigentes leoninos saídos daquelas eleições tipo Bielorússia, estamos finalmente no bom caminho — o presidente andou enrolado com os negócios da Expo e o director com as vigarices do BPN. Como diria o outro, quando não podemos com eles, o melhor é juntarmo-nos a eles.
Saudades leoninas para bocemecês também.

 

As ilustrações foram gentilmente rapiocadas ao grande português João Abel Manta. E o título ao igualmente grande brasileiro Chico Buarque de Holanda.

 

UM OLHO NO BURRO | crónicas engajadas de um redactor free lancer | 05