A república dos anões

Que esperar de um Portugal onde uma chapelada de votos é validada, os futuros magistrados da república nem copiar sabem e o entra-e-sai do futebol disputa o espaço mediático com o governo de salvação nacional?

Passado o período de nojo eleitoral, contados a destempo os votos da diáspora, empossado o primeiro-coelho da nação e praticamente fechado o plantel do Real Madrid, é tempo de balanço.

Tal como previsto, PSD e CDS ganharam o périplo. O PS, pese o surpreendente discurso da derrota e o indisfarçado alívio do derrotado, recolheu-se em tábuas. O PCP teve mais uma grande vitória e conseguiu segurar um dos 31 deputados perdidos entre o PS e o BE. E este revelou-se em todo o seu esplendor desquerda — apesar de ter perdido metade (repito, metade) do mercado, o grande economista Francisco Louçã não entrou nessa deriva burguesa de pôr o lugar à disposição e desdobra-se agora em penosos exercícios de autocrítica. O que parece não evitar a purga dos quadros, o cerrar fileiras dos beriazinhos e a demonstração daquilo que o saudoso Júlio Pinto não se cansava de repetir — Trotzky foi apenas um Estaline que perdeu.

Isto na Liga Sagres. Na Liga Orangina, o camarada Garcia Pereira segurou a liderança e subiu mesmo uns vigorosos dez mil votos para 62 683. Logo em perseguição, o partido dos animais alcançou o espectacular número de 57 849 apóstolos dessa nova classe evolutiva de primatas amamentados a ‘leite’ de soja. Deixando muito à distância o partido dos humanos, que apenas conseguiu juntar uns infiéis 3 590. Se o esférico é redondo, insondáveis são os desígnios da natureza.

[ Entretanto, no PS, logo na noite eleitoral se pôs em bicos de pés um dos grandes representantes da ‘tralha guterrista’ — o Tózé Seguro. Que, assim à primeira, parece ter com ele o aparelho. Não se riam, que parece mal. Bem sei que é um trabalho à Marques Mendes, mas alguém tinha que o fazer. Ainda bem para o Assis que merece, na minha opinião, melhor destino que fazer de sacristão e benzer de cruz todas as ditosas medidas da troika.]

Bom, morto o Sócrates e enterrado o PS, o povo pensou por momentos — agora vai. Pura ilusão. Logo no dia da raça, como regularmente lhe chama a pantufa presidencial, Cavaco voltou à rábula do presidente-agricultor, estreada durante as últimas presidenciais. Pasmo nas cidades. Então não foi o grande economista de Boliqueime quem negociou, em nome das bem-aventuranças da PAC, o desmantelamento das nossas agricultura e pescas?

Provando que um mal nunca vem só, no mesmo dia desceu sobre a azinheira mais uma virgem e futuro candidato do centro-centro à presidência. E, seguindo as virtuosas passadas do PR que pretende suceder, também António Barreto fez de conta que não teve nada a ver com o desmantelamento da agricultura que, agora, tantas comichões lhes faz aos discursos do dia da raça — raça de agricultores, certamente.

Entretanto, no cumprimento de um calendário eleitoral no mínimo patético, dez dias depois foram finalmente contados os votos dos emigrantes. É uma das anedotas do regime. Segundos os estudos sobre o impossível número de eleitores-inscritos, os que não são eleitores-mortos são eleitores-fantasma, ou seja, emigrantes recenseados na santa terrinha. Dos lá por fora regularmente inscritos devem abster-se para aí uns 80 ou 90%. Mas os poucos que votam elegem cinco deputados. Ainda assim é preciso arregimentá-los em indisfarçadas chapeladas nas sedes dos partidos, neste caso disfarçada de jornal ‘dêmigrantes’.

Que a CNE validasse uma chapelada, parece-me mal. Que se fizesse chantagem para apressar a tomada de posse do ‘novo’ governo de salvação nacional, deixa-me sem adjectivos. Que mesmo aos jornalistas ‘independentes’ e aos comentadores da ‘sociedade civil’ tudo isto lhes pareça normal, deixa-me um pouco assustado.

Findas as exéquias, as recusas das primeiras linhas e as contratações de última hora, foi finalmente apresentado o ‘novo’ governo de salvação nacional. Todos esperavam ver o Coelho tirar mágicos da cartola. Porém, em vez da prometida equipa de galácticos, apareceu com uma selecção de sub-20. Estou a exagerar? Penitencio-me e recuo como o Ricardo Costa? Nem pensar. Permitam-me, em vez disso, que use em meu socorro dois exemplos pouco auspiciosos.

1) Álvaro Santos Pereira, apresentado nos oráculos das têvês como economista, professor e romancista. Este professor estrangeirado e novo super-ministro da economia, transportes e obras público-privadas dizia, aqui há uns meses, que a situação da nossa economia se deve às sucessivas políticas erradas. Certo. Seria apenas lapalisseano, se o professor ‘canadense’ não fixasse a origem dessas políticas há precisamente 15 anos. Isto é, desde que o PS chegou ao governo após a primeira década cavaquista. Ora, se fosse outro eu até lhe poderia dar um desconto — é novo, não pensa. Ou não se lembra. Sendo super-ministro, uma de duas: ou é ignorante, ou, pior ainda, está de má fé.

2) Fernando Nobre, a criatura mais bizarra do panteão nacional. Usou o seu protagonismo humanitário para apoiar portugueses tão sortidos como Francisco Louçã ou António Capucho. Candidatou-se à presidência da república, posicionando-se à esquerda de Cavaco, tendo sido apoiado por pessoas colocadas ainda mais à esquerda. Convidado pelo PSD, aceitou encabeçar-lhe a lista por Lisboa com a condição de ser presidente da AR e anunciando que não ficaria como deputado se não fosse eleito. No dia do tira-teimas obrigou Coelho ao embaraço de duas votações negativas logo no primeiro dia da legislatura. E, no fim, mais uma vez dá o dito por não dito e ‘fica como deputado enquanto for útil à nação’. Pois a nação, representada pela larga maioria dos deputados, não lhe viu qualquer utilidade. Contudo, agora, nem a nação nem o PSD se conseguem livrar dele.

Tudo isto é triste e, mais uma vez, me faz lembrar o futebol. Por exemplo, Fábio Coentrão, tal como Fernando Nobre, também apresenta sérios problemas de coluna. Há uns anos, quando o Sporting esteve para o comprar, era um fervoroso sportinguista; depois, para usar as suas elegantes palavras, ‘aprendeu a ser Benfica’; quando julgava ter contrato fechado com o Real, já respirava Madrid por todos os poros; afinal não era bem assim e reaprendeu ‘a ser Benfica’, nem que fosse por mais uma semana. Bem sei que no SLB estão habituados ao benfiquismo do Vieira que, noutros tempos menos felizes, foi sócio de boa parte dos clubes da primeira divisão. Porém, se sempre é verdade que o Benfica é meia nação, com exemplos destes a nação não vai longe.

 

E os anões, pá?

Bom, não deveria ser necessário explicar a minha metáfora da república adormecida. Contudo, ele há coisas que desafiam mesmo o tuga mais pessimista. Abafado pelas tomadas de posse do Coelho no Palácio da Ajuda e do Villa-Boas em Stamford Bridge, esmoreceu o escândalo do copianço dos futuros magistrados. O CEJ, para despachar mais uma fornada de juízes, fez um exame de cruzinhas. Os candidatos de tão maus nem copiar souberam. Descoberta a marosca, o CEJ resolveu não chumbar os faltosos e, em vez disso, passar administrativamente os 137 candidatos, a todos atribuindo salomonicamente ‘a nota mínima de dez’ (!?).

Claro que, entretanto, pessoas e instituições ainda com algum bom senso obrigaram a directora a demitir-se e o CEJ a repetir o exame. Mas o mal está feito. Porque, aparentemente, os candidatos tiveram acesso prévio ao teste. Daí a repetição nos erros que levaram à descoberta da fraude. Ora, que eu me lembre, tal procedimento está previsto no Código Penal como crime — e público. Porém, como o CEJ mandou todos os 137 candidatos para o mesmo cesto, impende agora sobre cada um deles a fundada suspeita da prática de um crime grave. E se ‘os tribunais são os órgãos de soberania com competência para administrar a justiça em nome do povo’ (artº 202 CRP) e ‘ao ministério público compete (...) defender a legalidade democrática’ (artº 219 CRP), como pode o povo não guardar mais respeito aos ladrões propriamente ditos?

Ainda assim, há uma moral a retirar de tudo isto. Do mesmo modo que de um povo tão grande puderam nascer tantos anões, resta-nos o consolo de esperar que a uma geração de anões possam suceder pessoas, ao menos, de tamanho médio. Façamos figas. E filhos. A ver se apuramos a raça.

 

UM OLHO NO BURRO | crónicas engajadas de um redactor free lancer | 08