A angústia do eleitor desquerda no momento do penalty

O eleitor-vivo poderia ser levado a pensar que, dada a importância destas eleições legislativas, os partidos do centro se deixavam, de uma vez por todas, de jogar para o empate. Nem por isso. Mas uma coisa é certa: este derby vai ser arbitrado pelo Olegário Benquerença da política — o Paulinho das Freiras.

Nos já saudosos tempos do PREC houve um partido maoista, a Aliança Operário-Camponesa, que ficou famoso por duas coisas: a devolução de Olivença e o glorioso slogan — “Um voto na AOC é uma espinha cravada na garganta do Cunhal”. Este partido nasceu de uma dissidência do PCP(m-l) e foi fundado por um tal Heduíno Gomes (também conhecido pelo Renegado Vilar) que, ao que ouvi dizer, acabou na ala direita do PSD. Talvez por efeito de um qualquer código genético laranja, num comício recente do PSD em Bragança, aquele pote inchado que encabeçou as listas europeias em 2009 fez a seguinte e perturbadora alocução — “Nós não temos medo do medo”. Porra, homenzinho, não assuste assim as pessoas. Se, tendo em conta o aborto da Troika, ganhar o PS ou o PSD parece não fazer grande diferença, já meter medo ao susto não é uma simples questão de ‘cuelhos’ (no sentido de ‘quem tem cu tem medo’, bem entendido). E, apesar da apregoada ‘claustrofobia democrática’, ainda nos falta muito para chegarmos à Madeira.

Ora bem, mais um vez estou certo que a abstenção, com a ajuda dos eleitores-mortos, vai ser o partido mais votado. Embora, por esta vez, não fique lá muito feliz com isso. É que, agora, não se trata de reeleger o Cavaco, um cadáver ambulante que, durante os próximos cinco anos, tudo vai fazer para, cortando fitas e vetando diplomas, parecer que ainda mexe. Agora trata-se do futuro dos vossos filhos. E, desta vez, o eleitor-vivo deve estar preocupado. Pode parecer, mas um ‘coctaile’ PSD-CDS ou PS-CDS não tem exctamente o mesmo sabor. Nem dá a mesma ressaca.

Vejamos, então, que opções tem o distinto freguês no cardápio. Entre os menos pedidos, o chefe recomenda três clássicos e duas novidades.
Entre os clássicos temos, dois pontos. O incontornável POUS, envelhecido em meias pipas de carvalho, da senhora dona Carmelinda Pereira. O late bottled vintage popular monárquico, onde pontifica um dos manos Pereira, um belo autarca do fado que parece andar a promover o último CD do cavalo ruço. E — tinha ‘de’ ser — o implacável PCTP/MRPP do não menos implacável Garcia Pereira. Não é por mal, mas a mim ninguém me convence que ele não aproveita as eleições para promover o seu escritório de advogados. E que melhor promoção poderia arranjar que puxar dos galões jurídicos e pôr a república em sentido com as suas próprias e obtusas leis pretensamente igualitárias? Debates para todos, o tribunal deu-lhe razão, as televisões agendaram-nos, os convidados apareceram, mas o implacável Garcia Pereira meteu o rabo entre as pernas e, como dizem os calés, ‘narrou-se’.

No segmento das novidades, destacaria, entre todos, o PTP e o PDA. Estes alegados partidos, em si mesmos, não são exactamente novos. O Trabalhista Português foi criado em 2009, mas apresenta a novidade de ter nas listas o outro Coelho (como se previa, o senhor começou a levar-se a sério). O segundo, o do Atlântico, existe mesmo desde 1979 e começou por ser um partido independentista açoreano. Agora, aparentemente, sofreu um take over do Movimento Partido do Norte e concorre em distritos tão atlânticos como Viseu, Guarda, Vila Real ou Bragança. E, nos tempos de antena, afirma o seguinte — ‘Tudo Pelo Norte, Nada Contra o Norte’. Carago, antes a moirama que tal desnorte.

Mas ele ainda há mais, como só nos saudosos tempos do PREC, partidos para todos os gostos. Ele há os a favor: o da terra, o pelos animais e pela natureza, o pelos humanos, o da esperança portugal. Mas também há os do contra. Um contra os pretos, os judeus, os monhés, os comunas e os rabetas em geral. E outro contra o aborto. Na Polónia houve um partido da cerveja e, entre amigos, um dia imaginámos criar um Partido Ecologista os Maduros para defesa das puras castas nacionais touriga e castelão. Digam lá que não ficava tão bem à mesma mesa de voto.

 

Agora fora de brincadeiras

Que, como dizia a minha mãe, ‘o tempo não está para graças’. Votar num dos supracitados agrupamentos tem ainda menos efeito político que a abstenção, o branco ou mesmo o nulo. Ao contrário do que se diz da economia portuguesa, os micro-pequenos-e-médios partidos não trazem qualquer valor acrescentado à política. E nem sequer chegam a fazer comichão aos grandes, já que todos juntos não ultrapassam os 5%. Partem todos, ainda por cima, de um pressuposto autofágico — são partidos criados contra os outros partidos. E porquê? Porque sim, porque os políticos e os partidos são naturalmente diabólicos. Por isso, inicialmente recorrem à designação de movimento. Porém, mais dia menos dia, para poderem concorrer contra os partidos a sério, têm que se resignar à condição de partidos a brincar.

Ora, entre os partidos assentes (no sentido de assento parlamentar) o eleitor-desquerda está muito mais entalado que o costume. O eleitor-pêcê está remediado, como sempre. O PCP continua a manter a rábula do partido-fora-do-sistema, embora isso não resista à realidade. Detém, há três décadas, boa parte dos governos autárquicos da península de Setúbal e do Alentejo. E basta viver entre Almada e Seixal, como eu vivo, para perceber quão dentro do sistema vive o PCP, a CDU ou lá o que é.
O único que pode afirmar tal coisa é o Bloco. Sendo que é esse precisamente hoje o seu grande problema. Os eleitores que, zangados, fugiram ao PS em 2009, regressaram estarrecidos ao voto-útil-desquerda perante a fundada possibilidade de um governo PSD-CDS.
Se o eleitor-de-direita rejubila com esta santa aliança, o eleito-de-direita avalia já o seu peso nas balanças do lobby. Talvez se venham, um e outro, a arrepender mais depressa do que seria de supor. É que ninguém acredita, tendo em conta as políticas recessivas para garantir o pagamento da dívida vincenda, que a economia portuguesa possa gerar a riqueza necessária para cumprir o plano A. Daqui à tragédia grega são dois ou três passos muito maiores que a perna do Coelho. E não me parece que Nobres, Catrogas, Nogueiras, Balsemões ou mesmo até Belmiros lhe garantam um aceitável plano B. Ou seja, ‘tamos feitos.

No fim serão dois os vencedores. A curto prazo o grande vencedor será Paulo Portas, pois, não só irá para o governo, como se livra do fantasma do taxi sempre que a república vira à direita. E, mais uma vez, embora a médio prazo, o Joselito Sócrates — ao perder as eleições por margem aceitável sai de cena relativamente incólume, livra-se das políticas impopulares que se avizinham, vai de sabática prolongada e regressa bronzeado para as presidenciais.

É Portugal, ninguém leva a mal. Mas, ainda asim, dê lá para onde der, desta vez vá lá e vote. E nos partidos a sério ¬— que desta vez não é para brincadeiras.



O título é um pastiche do filme de Wim Wenders, de 1972, a partir da novela de Peter Handke, A Angústia do Guarda-Redes No Momento do Penalty.



UM OLHO NO BURRO | crónicas engajadas de um redactor free lancer | 07