A Liberdade não dá lucro


Podemos dizer com toda a certeza que o universo é todo ele um centro,
ou que o centro do mundo está em toda a parte e a circunferência em lugar nenhum.
\\ Giordano Bruno, 16 DJ

 

Quando a rede se começou a expandir, ainda não há meia dúzia de décadas, toda a gente desatou a pensar Eis um novo caminho para a Liberdade.
E era. Ou podia ter sido. Podia mesmo. O problema é que a Liberdade tem sempre um preço. Ao contrário das casas dos electrodomésticos ou dos automóveis, não há Liberdade a crédito. Porque, ao contrário das coisas quase todas, a Liberdade não dá lucro. Por isso, não há time sharing para quinze dias de Liberdade por ano. Nem prestações, nem taxa fixa, nem juros bonificados, nem spreads negociáveis, nem benefícios fiscais. É preciso dar garantias reais. Hipotecar a alma, por vezes o corpo. E pagar juros. Demasiado altos como sempre são todos os juros. Usuários, injúrios. Pela única coisa que deveria vir mandatoriamente incluída no pacote vida. Com garantia vitalícia. E assistência pós venda. A puta da Liberdade.

Ecce femina. Não dá lucro mas pode sair muito cara. Na volúpia do momento parece que todos se esqueceram que as utopias tendem sempre a transformar-se em distopias. E esta move-se. Demasiado e depressa. Autodeterminou-se, autogerou vida independente, definiu os seus próprios fins e criou as suas próprias leis. Uma nova ordem tão desumana, tão tecnofascista e tão pouco urbana que, por cinismo consciente ou ironia poética, se autodenominou Aldeia Global.
O mundo não é hoje mais que uma teia ninfomaníaca onde praticamente tudo se processa, desde a compra de um pacote de bolachas com baixo teor calórico, ou de uma nova marca de cerveja sem álcool, até às exurberantes operações especulativas nos irracionais mercados de futuros.
As pessoas evitam sair de casa, atitude perfeitamente compreensível tendo em conta que as ruas se transformaram em locais pouco seguros. Não só por causa da incontrolável violência suburbana, mas sobretudo porque a poluição tornou o ar das grandes cidades praticamente irrespirável. A expressão \\ Um lugar ao sol // deixou de fazer qualquer sentido. A não ser para os desclas que não têm crédito para se defenderem do excesso de uvês. Inverteu-se a semântica e, agora, o maior sonho dos deserdados da terra é que o sol não nasça para ninguém. Ou, ao menos, que não nasça só para eles.
Deste estado de coisas rapidamente se aproveitou a jubilosa indústria dos trapos e acessórios. Não há semana de Paris ou Milão ou Xangai que os designers de moda não aproveitem para lançar ergonómicas máscaras respiratórias, luvas de latexes coloridos e sofisticados óculos espelhados com teletudo incorporado.
Entretanto, o planetazul foi sistematicamente dividido em resilentes blocos comerciais. Após a dispendiosa Campanha de Pacificação dos Países Produtores de Matérias Primas, que quase levou o capitalismo global ao colapso, as guerras convencionais foram completamente abandonadas. Sem melhores resultados, ao que parece. Por hoje morre-se, outra vez e cada vez mais, de sede e subnutrição, doenças sexualmente transmissíveis, cancros de pele, vírus multi-resistentes e problemas respiratórios em geral. Ou apenas por estar no sítio errado à hora exacta de mais um atentado meticulosamente desenhado para abrir o horário nobre dos info-satélites.
A sociedade deixou de comportar o conceito de classe média. Existem apenas dois grupos. Uns tantos classificados vivem em blocos habitacionais com boas condições de segurança, sistemas de oxigénio eficientes e acesso a tudo o que de melhor se produz, desde os populares videojogos que os aconchegam durante os longos meses em que praticamente não podem sair de casa, até aos luxuosos transplantes de órgãos que lhes garantem ad nauseam uma razoável aparência de imortalidade.
O outro grupo, por exclusão de partes, é composto por uma massa informe de desclassificados que habita nas periferias e se vê grego para angariar crédito suficiente à sobrevivência mais básica, num mundo onde o trabalho é tão escasso como precário. Os robots saem mais baratos. E dão muito menos problemas. Não precisam de parar para comer dormir procriar ou, simplesmente, para ir à casa de banho.
Foram em tempos aprovadas generosas leis que fixam quotas mínimas de trabalho humano desclassificado. Mas é óbvio que não são levadas minimamente a sério pelas omnipotentes corporações intrablocos, sediadas em inodoras zonas francas, na prática muito mais poderosas que os peripatéticos governos federais.
Levando até ao limite as teses neoliberais tão em voga nos finais do século passado, o estado foi reduzido ao menor denominador comum. Deixou de haver segurança social, sistemas de saúde, de educação, de justiça e até de segurança pública no sentido iluminista do conceito.
Quando algum descla comete uma infracção é levado a um tribunal digital e ligado à máquina da verdade, conhecida na gíria judicial por Confessionário. Se for dado como culpado é condenado a trabalho compulsivo em prol da comunidade. Porém, se o delito for muito grave, atentado ao ambiente, proliferação de doença sexualmente transmissível, agressão a um cidadão classificado, violação de software registado, et alt., a verdadeira pena é o extermínio puro e simples. Embora um rebuscado eufemismo jurídico lhe atribua o simpático nome de Reciclagem Social.
As prisões, tendo em conta os elevados custos para o contribuinte classificado, foram encerradas uma a uma. Na verdade também nunca serviram para outra coisa senão para dar formação aos delinquentes júniores e pós-graduação aos delinquentes séniores. Pois agora é tudo muito mais simples. Embora não necessariamente com melhores resultados. Apesar da insinuada paz pública.
Claro que os classes ainda são julgados em tribunais em tudo parecidos com os antigos, mas também é óbvio que, pois ele há coisas que nem o futuro consegue mudar, as leis ainda se lhes aplicam de forma substancialmente diferente.
Em todo o caso não chegam a tirar grande proveito deste aparente privilégio. Na prática, são ainda menos livres que os desclas. Tão magnificamente controlados nas suas gaiolas douradas, onde as paredes, não só têm ouvidos, como até têm olhos com autozoom e visão nocturna, que da vida pouco lhes resta senão o religioso cumprir de todas as regras, estabelecidas em palavrosas directivas da multipalavrosa União.
A não ser para um grupo mais jovem que se começou a rebelar contra a monotonia asséptica e concentracionária dos seus bairros classificados. Pela calada da noite disfarçam-se com roupas menos formais e aventuram-se em arriscadas incursões até às periferias. Só para jogarem jogos proibidos, comerem comida com elevado grau de colesterol, beberem bebidas com mais de 40 graus de álcool, drogarem-se com drogas antigas, ou até sexuarem-se de sexo não seguro com homens e mulheres de carne e osso.
Mas não levam nunca esta aventura longe demais. É apenas uma espécie de rebeldia climatizada. E segura. Como sempre as houve para recreio das juventudes privilegiadas. Radical chic qb, que a revolução, já lá dizia o inventor do termo, o astrofísico Benjamim Franklin, não é mais que a revolta de um astro sobre a segurança do seu próprio eixo.
Pois, para poderem sair da linha sem terem que sair do eixo, não se atrevem a sair de casa sem a preciosa escolta dos subrunners, cicerones solícitos da mítica arqueologia pós industrial do simstin, a quem mais não resta que lhes cobrar generosos créditos por tão prestáveis serviços. E sem recibo. Esse sim um crime realmente grave.

 

Fazer download deste ficheiro (FuturaBold-00.pdf)FuturaBold 1.0[Descarregue o primeiro capítulo em PDF]121 kB