Um táxi a parir teenagers

Era uma vez um bairro popular. Haviam putas às esquinas quase tão gastas como a tinta das paredes onde faziam tempo para o galão morno e a meia torrada a pingar de margarina vegetal na Leitaria Bar Nelson, haviam negócios surdos com relógios de marca e tirantes de ourina catados de esticão, haviam velhos quase a cair da tripeça, daqueles que se agarram apaixonadamente à bengala de pau-rosa e se debatem tenazmente por cada centímetro de calçada polida, e haviam também velhos um pouco menos velhos que nos intervalos da venda da lotaria e dos jornais ainda conseguiam decifrar a cor dos reis das senas e dos duques antes de os lançarem em voo planado para o difícil aeródromo da mesinha de mármore furta-cores, bem mais preocupados em não acertar nas rodelas olímpicas de tinto benzido do que em ganhar pontos lambidos ao adversário de todas as tardes.
Havia também uma certa classe média de origem recente, feita de donos de mercearias retrosarias e restaurantes, e de operários de escritório da administração pública, os primeiros de avental mais ou menos imaculado, os segundos rigorosamente fardados com o cinzento protocolar dos funcionários e amanuenses e mangas de alpaca em geral daqueles borralheiros anos de chumbo. Haviam floristas fadistas e jornalistas da bola, encadernadores alfarrabistas e livreiros de novidades literárias, e até haviam já alguns turistas estrangeiros que enfrentavam o very tipical das ruas esconsas, com as casas de fado devidamente arrumadas uma sim uma não entre dois restaurantes típicos, apascentados por guias praticamente trilingues em vistosos autopulmans com forced air, ou sob a escolta personalizada da afamada agência de segurança privada Fogareiros Inc.
Depois veio o 25 de Abril, os cravos e os capitães assinalados, os chaimites na rua e as gêtrezes como bolas coloridas nas mãos de uma criança, as gaivotas áboar e a democracia dos votos plantada demasiado à pressa num país de analfabetos ainda facilmente apascentáveis nos verdejantes caminhos do senhor, e a ideologia que é do povo e o povo que é quem mais ordena, e o wishful thinking dos amanhãs que cantam cantados em coro por indolentes ranchos alentejanos, ou ao desafio por guedelhudos cantores de intervenção da Avenida de Roma regressados de Paris à pressa para a rave do nosso tardio flower power.
A coisa, bem vistas as coisas, nunca passou de uma revolução da pandeireta, com muitas flores e fruta pouca, completamente fora de época, já com bicho, ainda mais a destempo ideológico que o velho estado novo que se propunha substituir. Verdade, verdadinha, foi assim como que a evolução na continuidade da primavera marcelista, como muito bem provam os famigerados cravos vermelhos. Mas, enfim, foi uma festa pá.
Tirando os turistas que deixaram de afluir, subitamente amedrontados com a cor dos cravos e o ardor revolucionário dos cantores da moda, pouco ou nada mudou naquele bairro popular, afinal tão esquecido pelo velho deus católico apostólico e romano, como pelo novo marxismo-leninismo de variante científica.
O que interessa é que, em 1980, o Bairro Alto não passava de uma zona de má fama. Putas decadentes a atacar nas esquinas. Tabernas povoadas de velhos com o baralho plastificado no bolso de trás das calças. E receptadores que regateavam ao tostão os tirantes relógios e brincos abafados na confusão da Baixa Pombalina. Para além dos oásis das mesmas casas de fado e dos mesmos restaurantes com ranchos de sete saias, que os turistas continuavam a enfrentar no aconchego dos mesmos táxis e dos mesmos autopulmans, o Bairro era ainda um terreno difícil para passear à noite. Quantas vezes não tive que dar corda aos sapatos para não ser apertado por três ou quatro gandins saídos sabe deus donde. Para chegar ao Barbarela, ali na Rua da Atalaia, ou bem que fazia o triste papel de camóne e descia do táxi à porta do bar, ou convinha progredir no terreno com os lúzios muito bem abertos.
Ir ao Barbarela era como a desobriga no domingo de Páscoa. Enquanto o país real saltitava nas discotecas, ainda uma autêntica novidade no reyno, ao som do ranhoso You can ring ma bells, ou do disco-macho-gay dos Village People, os menos dançarinos se deleitavam com as pardaladas dos Supertramp e dos Dire Straits, e os menos serôdios julgavam que conhecer Genesis e Pink Floyd era como pertencer a um clube de connaisseurs, no Barbarela já se ouvia Television, Material, Talking Heads e por aí fora. No Bairro havia ainda o Souk e o Barracuda, para os freaks das 1ª à 3ª gerações. E no resto de Lisboa, tirando o Brown's na Visconde de Sabugosa, o panorama era tão kitsch que até o Archote, no Arco do Cego, conseguia manter o estatuto de discoteca com fila à porta.
Os bétinhos usavam umas calças unisexo de cores berrantes, sem pinças, muito apertadinhas até ao joelho e muito largas daí para baixo, abrindo em gloriosa boca de sino sobre o sapatinho de berloque italiano. Nas zonas suburbanas pululavam umas reduzidas mas barulhentas seitas de punks, que fingiam espetar alfinetes de ama nas bochechas nas orelhas e na testa, ouviam Sex Pistols, Clash, 999, Damned, UK Subs, Exploited e PIL, passavam o tempo a armar zaragatas, a dar biqueiradas nos inocentes caixotes de lixo pendurados nas soleiras das portas, a mamar sandes de coiratos e mines na Feira da Ladra, e a procurar uma nesga de parede onde pudessem escrever com latas de spray preto

NO FUTURE

PUNK' S NOT DEAD

NEVER TRUST A HIPPIE

Porém, durante os primeiros anos da década de 80 o velho Bairro sofreu uma mudança absolutamente radical. Loja de móveis aqui, discoteca ali, uma padaria que sofre por obra e graça de Manel Reis o Inventor da Noite o milagre da transformação em poiso obrigatório de actores subsidiados, estilistas radicais, escritores em vias de sucesso nas páginas de cultura dos semanários e artistas plásticos empenhados em introduzir o acrílico na pintura pós-moderna, em menos de um lustro o velho bairro popular transformou-se numa imensa feira de modas e vaidades. E era vê-los, peregrinos suburbanos em busca da salvação eterna da passagem da rua para o calor da pista, a Guida Gorda armada em implacável S. Pedro, porteira de um céu que por vezes mais parecia um inferno Ai isto hoje está impossível, empurrão para um lado, apalpão para o outro, Desculpe mas é só para clientes habituais.
E o Bairro Alto já não era o mesmo. A exemplo do que acontecera muitos anos antes em Madrid ou Paris, os pintores escritores actores jornalistas publicitários designers e todos os opinion makers em geral invadiram à uma o velho bairro. Taberna a taberna, mercearia a mercearia, esquina a esquina, putas decadentes, fadistas sem voz e gatunos quase na idade da pré-reforma compulsiva foram sendo empurrados para as ruas mais obscuras, enquanto velhos armazéns eram transformados em bares restaurantes lojas de antiguidades lojas de roupa mais ou menos de alta costura lojas de móveis modernaços ateliês de design e todo um sem número de negociozinhos de bijuteria e bric-à-brac que nunca ninguém percebeu como podiam dar guito.
Peregrinos da cintura industrial, tribos suburbanas resguardadas pelo rigor das fardas e dos gostos musicais, esquinas que sofreram o upgrade dos novos consumos para-legais, o Bairro tornou-se em três tempos a meca de todas as noites de todos os outros bairros da pequena grande metrópole que faz do resto só paisagem, pelo menos desde que o Martim Moniz se deixou entalar por uma porta infiel.
A coisa começou a atingir tais proporções que o estado-maior da gandulagem bairraltense tocou a reunir no Lisboa Club Rio de Janeiro. Ao fim de 20 minutos de vigorosas marteladas com o cu da resistente garrafa de Sagres na mesa de mármore para exigir silêncio da assembleia, ficou decidido e lavrado que, de futuro, Só em caso de necessidade devidamente justificada podem os presentes e os ausentes nesta assembleia por eles representados recorrer ao gamanço de esticão e à navalha sevilhana, já que está visto provado e por este meio ratificado em acta abaixo assinada haverem formas bem mais prazenteiras de continuar a baratinar o otário, pelo que, portantos, convém a partir da presente não espantar a caça com assaltos agressões ou quaisqueres outros comportamentos menos urbanos.
Daí para a frente foi a invasão declarada. Sextas e sábados, mal o sol se punha, era ver os peregrinos a trepar o Chiado, a Calçada do Combro, as Escadinhas do Duque, o Elevador de Santa Justa e a Rua do Alecrim, afluindo em romaria mariana de Lisboa e arredores. Os habitués fardavam obrigatoriamente de luto carregado por Ian Curtis, quando muito faziam pequenas concessões ao branco e ao cinzento, uma vez por outra conseguiam vislumbrar-se elementos de seitas minoritárias, metálicos, um gótico ou outro, carecas nacionalistas a fazerem peito patriótico com t-shirts da bandeira inglesa, vanguardistas semi-gay dos saldos de fim-de-estação dos Porfírios e até um ou outro bétinho completamente deslocado, contudo também ele à procura de um engate fácil, consumado em furiosas marmeladas e rápidas mamadas nas casas de banho da Juke Box, do Café Conserto ou da Ocarina.
Portugal, bem vistas as coisas, aproximava-se a passos largos dos altos valores culturais europeus, em cuja Comunidade Económica acabava triunfalmente de entrar pela mão autoritária do Professor Doutor Conde Barão de Boliqueime, Primeiro Ministro da Nação Algarve e Ilhas Adjacentes, incluindo metade de Timor, adjacente da Indonésia e do filho da puta do Suharto.
Nos finais de 80, princípios de 90, um regular cumpria o figurino marcando encontros na Brasileira ou no Estádio. Quando o dinheiro era escasso jantava por ali num tasco infecto cuja ementa se limitava a assinalar bitoques com ou sem ovo. A seguir ia beber um copo ao B'Artis ou ao Nova, passava pelos 3 Pastorinhos e pelo Sudoeste antes de arriscar a rede apertada do Frágil, ia ver as modas ao Trumps, tentava o Plateau e, depois, cama. Em dias ainda de menos papel, havia a alternativa das tascas pós-jantar, o Arroz Doce/Pontapé da Cona, as Primas, o António, e um nunca mais acabar de sítios onde, em alegre comunhão dionisíaca, a juventude lisboeta se emborrachava em uníssono, desafiando a condescendente Lei do Balão, uns tantos todos os dias, a grande maioria apenas às sextas e sábados.
E, assim sem mais nem menos, se esfumaram os pouco gloriosos anos 80. E mais metade dos 90. Com o estertor do consulado cavaquista passou-se do nunca me engano e raramente tenho dúvidas para a dúvida metódica do beatério guterrista. À noite cresceram a 24 de Julho e as Docas, com Santos pelo meio, numa segmentação do mercado do lazer que deixou para o Bairro e para a Graça os artistas lato sensu e outros alternativos avulsos, e o resto do território para os queques betos pimbas suburbanos infra-urbanos chungas chungas-chic chungas-choc debutantes e aspirantes a todos os géneros supracitados, com uma linha divisória que deveria pela lógica ter sido estabelecida algures a meio da Calçada do Combro, mas que o Incógnito e a Cachupa obrigaram a fixar na intersecção da Rua de São Bento com a Poço dos Negros. Os bares clubes discotecas e casas de sandes espalharam-se como uma praga de gafanhotos por toda esta vasta zona da velha Lisboa, galgaram a linha de caminho-de-ferro que nos dias úteis transporta o povo matinal de Cascais para os escritórios da Baixa Pombalina, e só se detiveram perante a heróica resistência das tágides, não sem antes devorarem quase por completo os restos mortais do defunto Império Sacro-Santo Marítimo.
Contudo, diferenças ideológicas à parte, quando chegava a madrugada encontrávamo-nos todos no fundo das catacumbas infernais do Kremelin, ou debaixo da abóbada celeste do Alcântara, quando não mesmo nas rulotes dos cachorros com tudo, na chunguice do Cacau da Ribeira ou, só mesmo pour les compagnons, no retiro do Ti Jaquim mesmo à entrada do mercado da fruta, uma abençoada casa onde a partir das cinco se podia aconchegar a fome com sopa quente petiga frita sandes de carne assada a pingar molho pelas mãos abaixo e até pão de ló acabadinho de desenformar.
Um dia, era o chuvoso outono de 98 quase no fim, calcorreava sem destino as vielas laterais por onde praticamente nunca passava e descobri quase sem querer o Novyork. O nome fisgou-me logo. Pesei durante alguns segundos se entrava ou não. Cedo era. Ver as mesmas caras de sempre nas mesmas tascas do costume, cheias dos mesmos garotos de todos os fins-de-semana a enxofrarem-se de cerveja até à hora do último barco e do último comboio para as reluzentes periferias, também não me apetecia por aí além. Atirei-me portanto ao porteiro com um polido boa noite. Este, fardado com o rigor de naftalina dos antigos comodoros de estação ferroviária, fez-me sentir num tribunal de polícia a responder por desacatos na via pública. Os seus olhos, onde as cataratas e a pinga haviam já desenhado milhares de minúsculas estrias vermelhazuladas, executaram um impertinente movimento de câmara desde a minha cabeça até aos meus pés.
Muito boa noite faça o favor de entrar.

 

José Xavier Ezequiel, fados & desgarrados, pág.s 55 a 61
Campo das Letras, 2007