Prefácio Dinis Machado


O texto do meu amigo Xavier é uma excelente surpresa. Vem da época do nosso aculturado americanismo e é praticado sobre uma realidade portuguesa actual. O leitor mais atento repara nas heranças que aqui se cruzam e apercebe-se que, através desta realidade portuguesa, perpassa toda uma mitologia de um tempo. Xavier leu, na sua altura, os livros fundamentais dessa mitologia e actualiza-a de uma forma brilhante, inscrevendo ‘fados & desgarrados’ numa verdade tão nossa. De Dashiell Hammett a Raymond Chandler, passando por Auguste le Breton, Ross MacDonald, Albert Simonin e Mickey Spillane, Xavier recupera essa herança.

O livro não precisa de muitas explicações neste prefácio. Dadas as matrizes do género, ‘fados & desgarrados’ é para ler como mais uma história revitalizada de ‘tristes, solitários e finais’, na expressão de Chandler depois recuperada por Osvaldo Soriano, e que foi, durante muito tempo, emblema do romance negro. De John Huston a Jules Dassin estão aqui rememoradas e revitalizadas muitas dessas pérolas. Só resta ao leitor ter o prazer de ler estas páginas palpitantes que, mais uma vez, reinventam o género.

Também podíamos falar aqui de personagens soltas de Maigret e de incursões de Borges, mas já basta como matéria de informação. Tenho ainda o prazer de lembrar ao leitor que Xavier é um conhecedor desta mitologia e que nada do que aqui aparece é gratuito. Espero que quem ler este tão excelente e necessário livro lhe dê a atênção que ele merece. Faz parte de toda a nossa memória.


Dinis Machado
4/Junho/2006