Crítica Teresa Sá Couto

Torrencial, vertiginoso, inteligente, indiscreto, provocador, boémio, burlesco, irónico e sarcástico são adjectivos obrigatórios para se anunciar o livro Fados & Desgarrados de José Xavier Ezequiel.
Esta é «uma história revitalizada de ‘tristes, solitários e finais’», diz Dennis McShade, pseudónimo de Dinis Machado, no Prefácio; este é um vibrante manifesto daqueles seres desgarrados, acrescento eu, e uma história de descaminhos que encontra o caminho certo em 219 páginas.
Da colecção O Voo do Morcego, da Campo das Letras, a narrativa é um voo pela Lisboa noctívaga, pela nostalgia com travo de vodka dos bares do Bairro Alto das ressacas e dos engates, tudo enredos para uma vigorosa crónica de costumes que despe, literal e metaforicamente, e disseca, até ao risível, uma certa sociedade lisboeta, com extensões críticas ao país cultural, político, económico, social e moral, como há muito não o fazia a literatura portuguesa.
«Que os ratos se devorem uns aos outros», escreveu Jorge de Sena, asserção escolhida por José Xavier Ezequiel para abrir o seu romance. E está lançado o mote que se desenvolve em muitas e inusitadas voltas com o compromisso de fazerem da narrativa um laboratório de observação crítica da sociedade actual. Os «exercícios de voyeur» depois libertados numa «desnorteada associação de pensamentos» definem o método: o «velho hábito de observar as pessoas, tentando traçar-lhes o perfil a partir dos pequenos detalhes, da roupa que trazem vestida, do cheiro que escolherem usar», pegar numa «ponta solta de conversa, do que têm à frente para beber». A narração na primeira pessoa, espontânea, coloquial, em tom de confissão, estabelece um diálogo contínuo com o leitor que se lhe rende de bom grado.

 

Na roleta do quotidiano

 

Do protagonista fica o leitor a saber tudo o que ele quer contar e o que parece deixar escapar. Tem 43 anos, é bancário até às cinco horas, boémio depois disso. Descobriu o vodka, passando a dedicar-se-lhe de «alma e coração», depois de uma monumental «dor de corno» por uma namorada de classe baixa dos subúrbios, com «uma imensa vontade de subir na vida, um cu e umas pernas superiormente capazes de servir de moeda de troca», que o trocou por um «gajo» dono de um «MG coupé de 73».
Amante de «geografias» e de «excessos», a sede nunca lhe faltou, enquanto que «dinheiro no bolso, sempre foi inversamente proporcional à puta da sede». A vida sempre foi para ele uma roleta: «russa, espanhola ou a puta que o pariu. Sempre vivi cada momento com a paixão do dedo no gatilho. A rotação aleatória do tambor. No sítio fatal.».
Com este anti-herói surge uma galeria infinita de personagens, todas filtradas pelo seu olhar, com valor de tipos sociais que facilmente todos reconhecemos no nosso quotidiano, aqui construídas caricaturalmente pela palavra, enquadradas e prolongadas nos espaços – os bares e as labirínticas artérias da Lisboa noctívaga – que, por sua vez, pela sua engenhosa construção narrativa têm também eles o estatuto de personagens. Assim surgem: o «discurso entaramelado comum a todos os bêbados da aldeia global»; os «rituais de acasalamento», sexo, «putas», «putinhas», droga, paneleiros travestis, pelintras «com nome e novos-ricos sem background que se desunham para aparecer nas fotografias das revistas do pindérico jet set nacional»; e até um Tio, fiel representante dos sinistros endinheirados, um mafioso com contactos e negócios no mundo todo, nascido em Chaves, «criado com os porcos as cabras as ovelhas e as vacas», que aprendera as artes do «contrabando lucrativo» nos tempos de Salazar, e que era agora um gordo Paxá com o «estereotipado hábito de se vestir de branco», «com chapéu pingalim Mercedes branco à prova de bala e todo o resto do figurino».
É esta figura que vai dar ensejo a uma história policial, um thriler à portuguesa a fazer lembrar-nos Eça de Queirós quando nos sugeria, no final de Os Maias, num desabafo de Ega, que os portugueses não se podem dar ao luxo de ter princípios, pois são feitos de Romantismo, «isto é: indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão». Será, pois, um Fado ser-se português desgarrado?
Cumprindo o seu fado, o protagonista lá se vai resignando: «Mas enfim, podia ser muito pior, morar numa casa em Chelas oferecida pelo senhor Presidente da Câmara em ano de eleições autárquicas, auferir o Rendimento Mínimo Garantido gentilmente cedido pelo senhor Ministro da Solidariedade, bonito nome, andar no paipelaine do cavalo e das lamelas de haxixe, arrumar carros nos poucos sítios onde ainda não puseram parquímetros da EMEL, e dormir nas sórdidas arcadas do Martim Moniz dentro de uma singela assoalhada de cartão que já tinha servido de agasalho a um espaçoso frigorífico alemão da classe energética A.».
Sendo esta narrativa insurrecta, reserva para o protagonista desgarrado um final feliz: o Tio mafioso, «mau como as cobras», é, afinal, seu tio, morre com sida – um brinde de uma das suas lolitas – e cancro da próstata, e, sem herdeiros, deixa-lhe a prolixa herança. «Por muito sujo que seja, é dinheiro. Bué dinheiro. E agora digam-me lá, seus invejosos, haverá dinheiro limpo?», atira ao leitor, numa pergunta de retórica, mas muito bem decifrada por nós, portugueses…

 

Teresa Sá Couto
Com Livros | 23/7/2008