Apresentação Viriato Teles

Fados & Desgarrados não é um simples livro de estreia de um autor recente. Isto porque nem o José Xavier Ezequiel é um autor recente no sentido mais rigoroso da expressão, nem estes Fados, pela sua estrutura e pela consistência que apresentam, têm as características habituais de uma «primeira obra».
Trata-se, como afirmou Mestre Dinis Machado de «uma história revitalizada de ‘tristes, solitários e finais’, na expressão de Chandler depois recuperada por Osvaldo Soriano, e que foi durante muito tempo emblema do romance negro». Mas eu atrevo-me a dizer que é também algo mais do que isso.
A trama do romance decorre essencialmente no dark side noctívago da Lisboa dos anos 80 e 90. Polvilhada de sexo, drogas e rock’n’roll em doses proporcionalmente generosas, percorre um universo onde se cruzam junkies, yuppies, proxenetas, putas-de-luxo ou assim-assim, encantados e desencantados da vida, e onde não falta sequer um leão-de-pedra com tiques de intelectual, na circunstância travestido de porteiro do Novyork, um dos vários bares onde se desenrolam boa parte destes fados.
Não é uma história simples, porque as histórias da noite nunca são lineares, nem mesmo quando parecem. Não é um romance de amores e desamores, embora uns e outros estejam presentes em muitas das 220 páginas do livro. Haverá quem lhe chame um romance policial, embora não haja um único polícia sério entre os personagens e as regras mais comuns do género sejam aqui frequente e alegremente transgredidas. De facto, a trama de Fados & Desgarrados está longe de corresponder à norma estabelecida para o género policiário. E já há 40 anos, o linguista búlgaro Tzvetan Todorov garantia que «o romance policial tem as suas normas» e que «fazer melhor do que elas pedem é ao mesmo tempo fazer pior». Este filósofo da linguagem acreditava que «quem quer “embelezar” o romance policial faz “literatura”, não romance policial». Isto porque «o romance policial por excelência não é aquele que transgride as regras do género, mas o que a elas se adapta», pelo que «o melhor romance será aquele do qual não se tem nada a dizer».
Nesta perspectiva, o livro do Xavier não pode, em definitivo, caber na definição de «policial». O problema é que Todorov acreditava que «não se pode medir com as mesmas medidas a grande arte e a arte popular», sendo que, na sua opinião, o género policial fazia parte deste último conceito – a arte popular – ficando o outro reserva do para os Escritores com E grande, os romancistas sérios e sisudos como James Joyce – e eu confesso que nunca tive paciência para ler o Ulisses…
Esta tendência de alguns literatos para acharem que a arte tem obrigatoriamente de ser complexa e de difícil entendimento, faz-me lembrar um pequeno episódio que se passou há 20 e poucos anos, quando Léo Ferré veio a Portugal realizar os seus primeiros concertos. Habituado a gravar com as grandes orquestras sinfónicas da Europa (e ele próprio um reconhecido director de orquestra), Ferré manifestou então o desejo de se apresentar em Lisboa acompanhado pela Orquestra Gulbenkian, que era na altura a única formação musical erudita digna desse nome, entre nós. O cantor Luís Cília, amigo de Ferré e um dos organizadores do espectáculo, dirigiu-se então à Fundação Gulbenkian, dando conta do desejo de Léo Ferré. E a resposta que teve foi: «Sabe?, nós não estamos vocacionados para acompanhar música ligeira…» Naturalmente, Cília virou costas e foi-se embora. Nesse mesmo ano, Ferré gravou não um, mas três discos com a Orquestra Sinfónica de Milão…
Enfim, como diria James Bond quando andava a salvar o Ocidente dos comunistas com a cara de Sean Connery, ché la vie! Isto tudo para dizer que, mesmo não considerando a literatura policial como um género menor, creio que será mais rigoroso colocar este livro do Zé Xavier na linhagem do romance negro, herdeiro da tradição ácida de Chandler, Hammett e Spilane, como uma vez mais notou Dinis Machado, desta vez através do seu alter-ego Dennis McShade.
O Xavier é um legítimo herdeiro dessas tradições literárias e, a seu tempo, devorou tudo o que de significante e insignificante havia neste segmento do mercado dos livros. Desde os clássicos de Dostoievsky e Allan Poe, a Herman Hesse, Albert Camus e Jorge Luis Borges – porque todos eles fazem parte desta grande e nada pacífica família, como aliás já terão percebido os que se deram ao trabalho de ler as notas-de-badana de Fados & Desgarrados, e todos os outros, os que são pura e simplesmente leitores atentos. Mas Xavier também leu Rex Stout e Van Dine, Patricia Highsmith e Gilles Perrault, Frank Gruber e Edgar Wallace, além dos inevitáveis Connan Doyle, Simenon, Agatha Christie, e sem esquecer os nossos Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão – que, com o Mistério da Estrada de Sintra, de algum modo inauguraram o género em Portugal.
Além disso – e muito mais importante – o Xavier conheceu de perto o universo onde se movimentam as suas personagens, não se limitando a observá-lo, mas, muitas vezes, entrando nele, partilhando os seus mistérios, os seus fascínios e as suas inquietações. Porque, como costuma dizer o Baptista-Bastos, quem não viveu, dificilmente conseguirá escrever sobre a vida. E este é um livro sobre vidas, de vários géneros e feitios, mais reais ou menos irreais, mesmo que não seja necessariamente um livro de histórias vividas. Nem tem de ser, já que a função da literatura não é retratar a realidade – coisa que, pelo menos em teoria, pertence aos domínios do jornalismo – mas sim reinventá-la.
E a história, as histórias sem moral que o Xavier nos propõe neste Fados & Desgarrados são isso mesmo: uma recriação de um tempo, não muito afastado, onde a vida parecia muito mais fácil do que é. Um tempo que foi, também, de solidões, de mágoas, de crimes sem castigo. Mas que, como todos os tempos, teve os seus momentos inesquecíveis. Tudo isto se encontra, inteiro e cru, nas páginas deste livro. Com a necessária dose de humor que é fundamental para dar algum colorido à vida. E com a inevitável dose de cinismo que é essencial para nos mantermos vivos.
Resta acrescentar que, ao contrário do que é habitual no género, neste romance o crime compensa. Não é para admirar. Afinal, esta é uma história portuguesa e passada em Portugal.


Viriato Teles
12.Set.2007